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Esquizofrenia

A POLÍTICA DAS RELAÇÕES HUMANAS

Como podemos perceber, a idéia central da antipsiquiatria é a de relação. Não existem seres humanos isolados, não existe um ser-sem-relação mas sim um ser-em-relação. Isto é uma prática inegável pois um indivíduo sempre está em relação com os outros. A vida de um indivíduo se dá e se define a partir dos relacionamentos que este mantém nos diferentes grupos sociais a que pertence. Partindo dessa premissa básica, tudo o que acontece com uma pessoa não se passa somente com ela, mas se estende àqueles aos quais ela está relacionada. Aí se mantém firme a insistência da antipsiquiatria no caráter político da vida humana.
Quando se fala em política, muitos de vocês podem estar pensando em vários partidos, candidatos a governadores falando em palanques, em comícios, candidaturas, eleições, etc. Claro que isso é política, mas política não é só isso. Ao insistir no caráter político da vida, os antipsiquiatras estão se referindo justamente ao fato de que todos nós sempre buscamos a felicidade (amor, prazer, etc.), e que esta busca passa, necessariamente, pelo outro. Logo, esse outro pode ser um caminho ou uma barreira até essa tal felicidade que buscamos; ou ainda – o que é mais comum – ser, ambiguamente, os dois (uma barreira e um caminho ao mesmo tempo).

Para tanto, política na antipsiquiatria diz respeito ao desdobramento do poder em quaisquer instituição social, desde as famílias (primeira instituição social) até mesmo aos sindicatos e partidos, passando nesse meio termo pelas escolas, empresas nas quais se trabalha, entre outras instituições (incluindo instituições religiosas). Política diz respeito ao poder que temos sobre o próximo ou mesmo o poder que o próximo tem sobre nós. Esse poder pode nascer de injunções estabelecidas socialmente, formalmente ou o que é pior, pode nascer de simples relações afetivas,

A dois.
Para ficar mais fácil o entendimento, é fácil verificar o poder dentro das relações humanas no nosso cotidiano (a política das relações). Um exemplo clássico em nossa sociedade é o poder que o pai tem sobre o restante da família. Se for perguntado a você, que está lendo esta monografia quem é o chefe da família em sua casa provavelmente você irá responder que é (ou foi) seu pai. É um fator cultural e bastante provável em nosso sistema o pai ser considerado o chefe da família, o indivíduo dentro do grupo familiar que tem o poder sobre os outros.

Existem ainda muitos outros poderes: o poder que o homem mantém sobre as mulheres (observável facilmente nas sociedades machistas), o poder do sacerdote sobre o fiel, o poder do patrão sobre o empregado, do irmão mais velho sobre o irmão mais novo, do professor sobre o aluno, enfim, uma infinidade de exemplos até mesmo um bastante interessante e que merece profunda reflexão, o poder do psicoterapeuta sobre o cliente.
Neste último é bom verificarmos que, até num processo psicoterapêutico, o terapeuta também está incluído no universo relacional do indivíduo, valendo do mesmo profunda atenção e consideração pois o núcleo do caso apresentado pelo cliente pode estar justamente no seu relacionamento com o terapeuta.
Mas voltando para as relações (de poder) humanas, pode-se dizer que todas as nossas relações são políticas, isto é, envolvem um jogo de poder, seja ele um poder instituído socialmente ou um poder mais difuso, um poder afetivo – um poder mais abstrato e quase que não perceptível. Sendo assim, as peculiaridades do indivíduo não devem ser vistas como existindo apenas nele, mas sim como o produto das relações que ele mantém com os outros. A maneira como ele existe, seu jeito de ser se deriva dos relacionamentos (políticos) entre ele e os grupos sociais a que ele pertence.
Portanto, podemos pensar que, o que realmente importa na antipsiquiatria não são as características de um indivíduo isolado, mas como tais características brotam de seus relacionamentos sociais.

Para se chegar a esses pensamentos, os fundadores e persecutores
Da antipsiquiatria (Ronald Laing e David Cooper) estudaram pensamentos de outros filósofos e cientistas. A fim de não sobrecarregar com muitas informações (a citação de cada um deles) é de importância frisar que um destes maiores filósofos era o francês Jean-Paul Sartre. Foi nele que Laing e Cooper articularam seus estudos sobre o indivíduo – existencialismo – como o estudo mais geral das sociedades humanas desenvolvido pelo marxismo.
Como se sabe, no marxismo procura-se determinar as relações político-econômicas globais de uma sociedade, isto é, procura-se determinar as relações econômicas e materiais que determinam as relações de poder numa sociedade. A junção dos estudos de Sartre e do marxismo levou a antipsiquiatria a enfatizar as relações humanas procurando compreendê-las desde as relações a dois, face-a-face, até as relações mais gerais, entre entidades e instituições sociais mais amplas. Mesmo porque é impossível separar o indivíduo de todo o contexto sócio-político-econômico no qual ele vive.
Portanto e, resumidamente, numa busca de compreender melhor o comportamento humano, a antipsiquiatria surgiu revolucionariamente com a proposta de negar completamente tudo o que a psiquiatria coloca sobre a doença mental, contrariando uma psicologia tradicional que toma o indivíduo em si mesmo, isolado num contexto mais geral para tentar compreendê-lo em função do inter-relacionamento social que ele mantém com o mundo; tentar compreendê-lo sob o seu universo relacional, sob a política que se insere nas relações humanas.

FAMÍLIA, ESQUIZOFRENIA E ANTIPSIQUIATRIA

Para se estudar melhor a política das relações humanas, devemos estudar a família como sendo a primeira instituição social que compõe o universo relacional de um indivíduo. Como Danda Prado diz em seu livro, cada ciência procura estudar a família sob um aspecto diferente, logo é interessante ressaltar que neste trabalho iremos estudar a família dentro de um contexto muito mais amplo; um contexto que enfatiza o sistema político, econômico e social que, querendo ou não, acaba por fazer parte das dinâmicas que constituem a estrutura familiar; em outras palavras, neste trabalho a família passa a ser vista como um fenômeno microssocial e micropolítico que influencia e é influenciada pelo sistema macrossocial e macropolítico, neste último caso, o Estado.

Sendo estudada dessa forma, dentro do contexto cultural onde está inserida a família, é possível analisar as ligações criadas e estabelecidas entre o Estado e o indivíduo dentro da instituição familiar; um estudo abrangendo o conjunto das relações interpessoais numa perspectiva mais social e abrangente.
Mas, antes disso, vamos procurar enfatizar o sistema de relações pessoais existente no interior da família e que irá nos ajudar a compreender como um de seus membros é conduzido à mais grave das doenças mentais: à loucura, ou mais especificamente, à esquizofrenia. O estudo das relações interfamiliares facilitará, e muito, a compreensão do duplo vínculo explicado no próximo capítulo.
Como visto no item anterior, nossas relações interpessoais são

Sempre políticas e na família isto não poderia ser diferente, mesmo por que

Ela própria se estrutura em torno do poder: o poder assumido pelo chefe ou

Por aqueles que sustenta (economicamente) o grupo e que, numa visão mais

Ampla, tem o poder de dirigir o destino dos demais membros (mais especificamente dos filhos) educando-os segundo regras por ele prescritas e indicando-lhes o caminho a seguir.
Esse tipo de poder na família pode adquirir (e quase sempre adquire) um caráter impositivo e ditatorial, onde determinados valores são impostos aos dependentes (os mais fracos). Sendo assim, o chefe ou os chefes da família decidem quase tudo sozinhos como por exemplo: desde o decote do vestido da filha, a que horas ela deve voltar quando sair e até mesmo quais são as companhias mais adequadas para ela. Em outras palavras, procura-se numa forma totalitária, formar indivíduos através da imposição dos mínimos detalhes e valores, que devem reger o comportamento dos membros do grupo.

Muitas vezes a imposição destes valores pode ser fortemente rígida e autoritária negando assim qualquer traço de autonomia e individualidade dos demais membros. Isto significa que, de certa forma, os filhos devem se tornar um produto dos desejos dos pais, seguindo-lhes rigidamente as prescrições e evitando quaisquer atitudes que fujam dos padrões por eles estabelecidos; impedindo assim seu crescimento enquanto uma entidade autônoma, capaz de se escolher e escolher os seus próprios caminhos e valores, passando a ser quem os outros querem que eles sejam.
Ronald Laing passou a chamar essa condição de sistema de falso eu na qual o indivíduo irá assumir determinadas maneiras de ser que estão em concordância com aquilo que esperam dele, afastando de si outras possibilidades que possam surgir de seus reais desejos.
Tendo em vista que o sistema familiar, nesse caso (e na maioria dos casos), é rígido e repressor, punindo os desvios de seus membros, o indivíduo passa a assumir-se como um personagem criado pelos outros. Para

Ser um bom filho e não sofrer a repressão ele passa a se comportar segundo

As normas que lhe foram ditadas pelos outros, retirando de si próprio o

Centro de decisões a respeito da própria vida; passando a assumir um falso

Eu, uma personalidade destinada a satisfazer os desejos do grupo, mesmo

Que seja o contrário que ele próprio escolheu para si.
Para a antipsiquiatria, esses falsos pressupostos e falsas atitudes geram a esquizofrenia, geram um modelo não usual de ser, de existir no mundo. Dentro desse contexto, podemos então perguntar por que dentro de uma família, mesmo sendo rígida e repressora, apenas um dos indivíduos desse grupo é que se torna um esquizofrênico e os demais não; por que apenas um deles é que se torna diferente, esquisito, levando os outros a conduzirem-no a um tratamento.

Para responder esta questão podemos analisar a situação inversa, por que um indivíduo não se torna um esquizofrênico.
Quando o sistema familiar não é repressor ao extremo, permitindo que o indivíduo descubra, em outros grupos, outras maneiras de ser, existem grandes probabilidades de ele tomar consciência do jogo em que está inserido. Existem maiores possibilidades de perceber que ele pode assumir seus próprios valores, desde que longe do sistema familiar impositivo. Sendo assim, ele passa então a jogar, frente à família, o papel que dele esperam, comportando-se de maneira autônoma longe dela. No geral, é isto que preserva nossa sanidade: a descoberta das regras do grupo onde estamos e da nossa liberdade para manipulá-las em nosso proveito (o que não ocorre no duplo vínculo, abordado mais adiante).

Sob esta ótica podemos dizer que nós aprendemos a ser quem os outros querem que sejamos quando estamos junto a eles, sendo em outros lugares aquilo que realmente somos ou queremos, exercendo assim nossa liberdade de nos apresentarmos segundo o que as situações nos pedem. Mas, na família onde surge o indivíduo esquizofrênico o sistema é tão opressor que não permite a mínima variação da conduta de seus membros. O indivíduo esquizofrênico assume seu falso eu vinte e quatro horas por dia, renegando completamente as suas aspirações e paixões pessoais; deixando tudo aquilo que gostaria de ser ou fazer –que contraria as normas familiares- num estado latente, negando seu eu autônomo.

Vivendo através do seu falso eu, o indivíduo começa a perceber-se como estando cada vez mais distante de si próprio, distante de se tornar um ser autônomo. Ele passa então a viver como uma espécie de personagem que, no fundo, não quer ser.
Isto acaba por gerar um conflito que, gradativamente, vai assumindo proporções insuportáveis simplesmente pelo medo de contrariar as normas familiares e sofrer uma maior repressão.
Neste conflito pode-se observar que existem dois eu, um é aquele que lhe é imposto e o outro é aquele que ele aspira ser (mas que não é). De início é como se essa divisão pudesse ser mantida, porém com o passar do tempo, o indivíduo candidato à esquizofrenia percebe que na realidade ele não tem eu algum; percebe que aquilo que ele interpreta não é ele mesmo e aquilo que ele deseja ser não pode ser assumido: logo, ele não existe, passa a ser um simples boneco, despersonalizado e obediente às vontades alheias.

Neste momento sua angústia torna-se insuportável e, na medida em que ele se sente fragmentado, partido e carente de uma personalidade una podem surgir os primeiros sintomas do comportamento esquizofrênico. Para Laing e Cooper, estes comportamentos que ele passa a ter são uma forma de protesto à situação opressora que lhe nega a individualidade. Este protesto não é um protesto comum, é um protesto cheio de contradições, não declarado e nem admitido abertamente pelo próprio indivíduo. Se por acaso ele conseguisse assumir-se e protestar abertamente, estaria de certa forma, recuperando sua autonomia e sua individualidade, mas, como tem medo de mais repressões, sua forma de protesto é confusa, incongruente e visa inclusive mascarar o fato de que ele está se opondo ao grupo, aceitando assim o rótulo que lhe é atribuído : esquizofrênico.
Neste estado, é muito mais fácil assumir-se como alguém doente, confuso, carente de cuidados do que assumir-se como um opositor, alguém que nega as regras familiares. A mesma condição acontece do outro lado, é muito mais fácil a família assumir um filho doente do que um mau filho, sendo um consenso grupal a possível insanidade mental deste indivíduo.

Como ele não sabe mais quem é e sendo visto como um desajustado, cada vez mais passa a assumir o papel de louco, cada vez mais se afunda em suas contradições e em sua fragmentação.
Partindo para um ponto de vista micropolítico, a instituição familiar
Passa a ser então um local onde as pessoas devem assumir papéis com scripts pré-fixados independente de sua criação pessoal. Isto nos deixa uma expectativa de como devem ser os comportamentos e as atitudes de seus membros, como devem ser os comportamentos e as atitudes de um pai, de uma mãe ou mesmo de um filho, submetendo-nos aos papéis pré-fixados pelo sistema maior (do Estado). Sendo assim, .. “A família é especialista em estabelecer papéis para os seus membros, mais do que criar condições para cada um assumir a sua identidade”.
Podemos dizer então que os relacionamentos interfamiliares ocorrem segundo regras pré-estabelecidas tanto socialmente quanto particularmente (dentro de cada família).

Portanto a família passa a acatar as regras sociais maiores (do Estado) e passa também a criar suas próprias regras.
Para entender melhor isso, é bom observar que numa estrutura ditatorial e machista (como a nossa) , o poder de criar e acatar ou não tais regras é delegado privilegiadamente ao homem, ao chefe da família. Cabe então a ele legislar e promulgar as leis do grupo, bem como punir os que não as acatam. Aos poucos esse poder vai se configurando, democraticamente (partindo da discussão das regras), numa espécie de ditadura familiar que, se atingir uma ferocidade extrema, poderá produzir indivíduos esquizofrenizados.
Observamos ainda que, a família brasileira atual (em especial) tende a gerar pessoas altamente dependentes ao invés de formar indivíduos conscientes de sua individualidade e responsabilidade para escolher seus próprios caminhos.
Os filhos então passam a ser educados para a submissão e não para a autogestão. Devem se submeter às recomendações dos mais velhos, dos mais experientes, já que não possuem a capacidade para serem responsáveis por si próprios.

Esse tipo de submissão continua ainda na escola onde os alunos são subordinados à autoridade dos mestres e diretores que também já decidiram por eles o que e como deve ser seu aprendizado. Mas isso não para por aí, quando Wilhelm Reich disse que “a família espelha e reproduz o Estado” – em todos os sentidos - é fácil observar que a submissão acompanha o indivíduo em toda a sua vida, passando ainda por sua vida profissional e indo até mesmo à sua simples ação como cidadão (na qual o Estado é que passa a decidir por ele).
A situação de dependência familiar é hoje tão extremada entre nós que os pais não toleram que o indivíduo possa escolher não ser mais dependente deles. No geral, isto é interpretado pela família como uma espécie de ato de rebeldia, como uma negação da, como eles próprios dizem, felicidade que reina neste lar.

Se um filho resolve sair de casa e assumir sua vida própria os pais podem dizer: como você pode fazer isso conosco? Mostrando assim seu egoísmo; ou melhor dizendo, para eles não interessa se a atitude de sair de casa será ou não boa para o filho, o que interessa realmente é que essa saída não será boa para eles.
David Cooper então passa a insistir na questão do amor. Segundo ele, o amor dentro da família nuclear burguesa vem sendo vivido e entendido como dependência e submissão e não como a capacidade para compreender, exaltar e estimular a liberdade e individualidade do outro. Amar o filho deveria ser entendido como um estímulo para que ele se torne uma personalidade independente, e não como uma relação de posse, em que eu possuo o controle sobre sua vida.

Para se compreender melhor o conflito entre os papéis e valores impostos aos filhos podemos notar que, o mesmo conflito parte de uma situação ambígua, ou mesmo de uma ambivalência de sentimentos. Se de um lado a política familiar impõe determinada forma de ser que não é desejada, por outro lado ela fornece coisas boas como - por exemplo - um lar, dinheiro, proteção e amor. Mas, se não se comportar direito como se é esperado, o indivíduo então perderá o seu amor e proteção, tornando-se assim um mau filho. Por outro lado, se o indivíduo se mantiver dentro dos limites que lhe foram impostos, deixará de vivenciar e experimentar seus desejos, não se realizando como pessoa.

Sendo este o núcleo do conflito.
Para o indivíduo que experiência tudo isso, não é tudo tão simples assim. Ele se encontra muito confuso internamente, não sabendo mais distinguir com clareza o que ele realmente acredita e aquilo que os outros querem que ele acredite.
Esta situação de ambivalência, na maioria das vezes, está ligada a uma coisa chamada de sentimento de culpa; e que é o principal meio de controle familiar. É através de sua implantação no indivíduo que se consegue conduzi-lo a uma forma de introjetar os papéis e comportamentos prescritos.

É mostrado ao indivíduo que se ele não seguir as normas da dinâmica familiar estipulada ele poderá desestruturar o restante da família. Alguns exemplos clássicos quanto a isso são algumas das afirmações mais comuns que visam justamente a implantação da culpa:
Se você não se casar com esta moça eu sofrerei o resto da vida;
Se você for morar sozinho seremos vistos por todos como uma família desagregada, sem harmonia;
Você não tem o direito de nos fazer sofrer se metendo nestes movimentos estudantis, onde poderá ser preso.
Ou mesmo um exemplo mais trágico:
- Meu coração não irá agüentar; se você for estudar nesta cidade tão distante, sofrerei um enfarte.
Provavelmente você já deve ter ouvido algo semelhante, mais conhecido como chantagem emocional e que, como toda chantagem emocional, visa o controle através da culpabilização do indivíduo.
Portanto podemos concluir que, essa é a política da família: ambígua e, na maioria das vezes, contraditória.
Foram nestas contradições e ambigüidades que Laing e Cooper, para chegar à maioria das críticas que resultaram na antipsiquiatria e que vimos até agora, partiram de um estudo muito mais profundo e antigo denominado teoria do duplo vínculo. Neste estudo, direcionado especificamente sobre a abordagem sistêmica da doença mental (especificado no primeiro capítulo), demonstrava-se que na família do indivíduo rotulado como esquizofrênico era freqüente o envio de mensagens dúbias e de atitudes ambíguas.

Estudando a pragmática da comunicação humana dentro destas famílias, perceberam que os pais geralmente dirigiam a seus filhos determinadas mensagens com um duplo sentido, isto é, com sentidos opostos entre si. Estas mensagens, dentro da situação de submissão e dependência e entre outros fatores que vimos até agora, resultariam ao longo do tempo no falso eu descrito por Laing, num indivíduo esquizofrenizado que cada vez mais se perde na sua própria personalidade (personalidade esta que não existe).
Tendo então a psiquiatria com sua visão organicista da doença mental e a antipsiquiatria indo contra essa visão entre outros fatores que vão contra a psiquiatria de uma forma em geral, chegou-se à conclusão que o duplo vínculo seria então um dos meios utilizados pela família, mesmo sem perceberem, que facilitaria o controle dos filhos (ou de seus membros) e que numa situação mais crítica e, recebendo constantemente esse tipo de vínculo duplo, resultaria então na esquizofrenização de um de seus membros.

Em outras palavras, poderíamos dizer então que a origem da esquizofrenia se daria através de um erro na comunicação existente no interior da família; não deixando um de seus membros exercer sua individualidade, fazendo-o assumir assim seu falso eu.
O duplo vínculo então passou a ser a descoberta revolucionária mais importante para a antipsiquiatria no que se refere a teorias sobre a origem da esquizofrenia, a origem da mais importante e misteriosa doença mental.

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