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Sem pão para São Francisco

Batizado com o nome do santo homenageado no dia da sua descoberta, dia 04 de outubro, o Rio São Francisco correu fazendo história. Antes do descobrimento da sua foz por navegadores portugueses, em 1501, entre eles o seu padrinho, o italiano Américo Vespúcio, o São Francisco era chamado de “Opará” pelas nações indígenas que habitavam a região. Vale esclarecer que Opará, nome de origem tupi-guarani, significa algo como um rio do tamanho do mar.

Com tanta água correndo sertão afora, o São Francisco foi razão para que, na história dos governantes brasileiros, vez por outra, se tocassem em suas margens matando a sede de todo tipo de propósito político, principalmente interesses dos coronéis nordestinos. Agora, a questão parece estar a caminho de uma solução, ou pelo menos de uma conturbada evolução. Parece. Digamos que as aparências podem enganar. O governo Lula resolveu tocar o projeto de transposição do São Francisco; entenda-se que transposição é um deslocamento sem que se perca o veio central; em outras palavras: distribuir para outros lugares a água do caudaloso Velho Chico.

A partir desse brevíssimo preâmbulo o que temos para discutir adiante é algo que entra nas questões entre Igreja e Estado, Religião e Política. No caso específico abordaremos a greve de fome do bispo d. Luiz Flávio Cappio realizada contra o projeto de transposição do
Rio São Francisco. Economista e franciscano, Cappio nasceu no dia de São Francisco e adotou o rio como razão ética e religiosa para a sua luta em favor da natureza e do homem. D.Luiz não tem medido esforços para infernizar a vida dos que aprovam o projeto da transposição. Munido de desprendimento franciscano em favor dos desafortunados do nordeste brasileiro, o bispo engendrou por um caminho interessante: a greve de fome
como elemento de pressão política.

Interpretações bíblicas e setores chamados de progressistas da igreja católica justificam a greve de fome; buscam socorro, por exemplo, no evangelho de São Marcos onde diz “Quem quiser salvar sua vida perdê-la-á; mas quem perder sua vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á" (Mc 8,35).

Podemos entender, então, que diante da concepção acima, a vida individual está numa escala menor do que a vida coletiva, portanto a vida deixa de ser, na sua individualidade, um bem absoluto para que, na coletividade, torne um patrimônio da própria sobrevivência humana. Esclarecendo: uma vida pode ser perdida em nome de todas as outras, ou
na melhor das hipóteses, pode ser colocada à disposição de alguma coisa que impeça riscos à sobrevivência de uma coletividade.

D. Cáppio levou a termo essa missão política e religiosa, defendendo o rio no sentido de preservar as vidas ribeirinhas, até determinadas linhas em que a vida é tragada pelo sentido de aplicar à existência o cruciato. A separação entre Igreja e Estado, então, parece
mais uma via de choque do que propriamente de liberdade entre duas entidades. Seria algo como o impulso do amor diante de alguma norma legal, moral ou ética que proíba a sua manifestação.

O grande choque se dá quando o homem político se manifesta diante do Estado. Fica claro que a diferença e a correlação de forças entre um e outro é enorme. Via de regra o Estado é muito mais forte. Desta maneira, D. Cáppio lançou mão de três armas poderosas para tentar equilibrar essa força: uma em ser bispo da igreja católica, outra em
deter o poder de decisão do auto-flagelo e a terceira de que o seu ato teria repercussão nacional e internacional. Utilizou, sem pestanejar, do seu arsenal e iniciou seu caminho de colocar a própria vida no altar dos gabinetes de Brasília. Grande caldo no angu da mesa palaciana. O bispo parece chamar o debate para o seu terreno, ou seja, para o plano da ação política executada por meios não violentos. Vale lembrar que Mahatma Ghandi fez uso desse expediente, assim como, não sejamos simplórios, Saddan Hussen também o fez. Vale lembrar, também e portanto, que tal ato é apenas mais uma arma política e não uma manifestação de redenção exclusiva de pessoas bem intencionadas. A questão não é o que é feito, mas quem faz e a implicação política do ato feito.

Não existe um código de ética do flagelo. Não há como impedir posicionamento político, aliás, não se pode e muito menos se deve pensar em fazê-lo. Ainda: não temos como colocar comida adentro de quem não quer comer, mas quem se recusa à alimentação tem como colocar adentro de alguns segmentos interesses políticos, éticos, religiosos ou seja quais outros forem.

Enorme pedra franciscana no sapato da equipe Lula . Como fica um governo cuja raiz política está justamente na opção pelos mecanismos de pressão em favor dos pobres das mais severas maneiras? E como fica a igreja diante do bem supremo que é a vida criada por Deus e que somente Ele pode tirá-la? Não fica e nem vai ficar. Ao que parece a tática é esperar que o estômago do bispo encha novamente por um lado, e por outro que a sede do governo em executar as obras cesse. O governo tratou de recuar num primeiro momento para, em seguida dizer, pela boca do próprio presidente Lula, que as obras continuariam. D. Cáppio encerrou a sua greve disposto a reiniciá-la. Enquanto isso a vida de um bispo entra na luta em favor da morte de um projeto. O São Francisco corre e o povo urge sem pão e ao que parece sem Chico também.

Por Divino Advincula
Colunista Brasil Escola

Política - Brasil Escola

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