O homem em conflito
Conhecemos as grandes mudanças ocorridas na Europa que vão marcar o início da Idade Moderna, no século XVI.
No decorre desse período, a Igreja Católica, abalada pela Reforma protestante, pela crescente valorização da razão, pelo interesse da burguesia em aumentar cada vez mais seus lucros, pela afirmação do poder real, sente que é inevitável passar por uma reformulação.
Cria meios para que isso aconteça. Os principais instrumentos da chamada Contra-Reforma foram o Concílio de Trento e a fundação da Ordem da Companhia de Jesus.
Entre as medidas podemos citar:
1. restaurou a Inquisição, tribunal que julgava os cristãos que não seguiam corretamente a doutrina católica;
2. não admitia a livre interpretação da Bíblia;
3. confirmou a crença no purgatório e na necessidade do jejum, ou por penitência, ou por determinação religiosa;
4. proibiu aos membros do clero a acumulação de benefícios ou empregos remunerados.
A ordem dos padres jesuítas, fundada por Inácio de Loyola, tinha como objetivo primordial afirmar a crença católica, através da pregação, da confissão e do ensino.
Apesar de todo o empenho da Igreja em manter vivos os dogmas cristãos e os princípios eternos, no século XVII assiste-se à afirmação da ciência experimental, preocupada em expressar racionalmente as leis do Universo.
As novas teorias filosóficas e científicas vão alterando radicalmente a vida do homem.
Galileu Galilei (1564-1642) completa a teoria heliocêntrica de Copérnico. Descobriu os satélites de Júpiter, as manchas solares, os anéis de Saturno, deduzindo que a Terra gira sobre si mesma (movimento de rotação) e ao redor do Sol (movimento de translação). Condenado pela Inquisição, foi obrigado a negar publicamente suas idéias, sendo mesmo assim confinado em prisão domiciliar.
Descartes (1596-1650), famoso pelo princípio: Penso, logo existo, passou a considerar a razão como único meio para o homem atingir o pleno conhecimento.
Newton (1642-1727) prova a teoria da gravitação universal: A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias.
Não negava a idéia de Deus, mas eliminava sua intervenção no cotidiano do Universo, que funcionaria por leis próprias.
Leibniz (1646-1716) prova que o tempo e o espaço são relativos e que o éter é o meio através do qual a luz do Sol é transmitida à Terra.
Concluem que o Universo é regido por leis naturais. Abrem caminho para que os filósofos apliquem também essas leis naturais à religião, à política e à economia, indo ao encontro das aspirações da classe burguesa, que deseja crescer cada vez mais.
Afirmam que a vida, a liberdade e a prosperidade não deveriam ser manipuladas pelos governantes.
Em vista do contexto histórico-social apresentado, referente ao final do século XVI e século XVII, podemos observar dois aspectos distintos: de um lado o homem, em pleno desenvolvimento científico, e de outro a Igreja Católica, procurando restaurar sua força.
Para o ser humano que vivia nessa época, era quase impossível ficar passivo às interferências religiosas. Forte como sempre fora, a Igreja, com suas idéias, consegue provocar o sentimento de medo do pecado, o receio do castigo e a dúvida entre simplesmente crer ou racionalizar.
Ao mesmo tempo, também para o homem é impossível ignorar sua própria importância, coragem, desejo de liberdade, ambição de progredir, conhecer cada vez mais as leis do Universo. Conquistou tudo isso no decorrer de um longo período e agora, no século XVII, manifesta esse grande conflito na literatura, na arquitetura, na música e na pintura.
Em Literatura, esse momento de dúvida, de questionamento, de oposição entre o céu e a terra, a fé e a razão, o religioso e o profano, recebem o nome de Barroco.
Em meio a esse dilema, o escritor utiliza-se de várias figuras de estilo, que vão justamente representar o dualismo ideológico em que se encontra o homem barroco: a conciliação do espiritualismo medieval com o racionalismo renascentista.
Através do emprego de antíteses-figura que consiste na colocação de idéias opostas-, fica muito clara a contradição existencial do homem dessa época.
A presença de frases interrogativas também reforça o aspecto conflitante desse período literário.
A linguagem denotativa, objetiva, cede lugar à metáfora – uma comparação implícita, através de imagens simbólicas -, acentuando, assim, a necessidade de fazer vir à tona a sensação, a percepção.
Duas tendências, na verdade, caracterizam as produções literárias desse momento: o conceptismo e o cultismo.
O primeiro é marcado pelo jogo de idéias, através de um raciocínio lógico; o segundo, pelo jogo de palavras, através de uma linguagem bastante culta.
A realidade é para ser trabalhada através dos sentidos. Porém, dentro da consciência caótica do escritor desse período, sua percepção evidenciará temas como: o desejo da salvação, a fugacidade do tempo, a descrença e a corrupção.
Padre Antônio Vieira (1608-1697)
Antônio Vieira nasceu em Lisboa. Ainda na infância, veio com os pais para a Bahia. Estudou no Colégio dos Jesuítas, ordenando-se padre em 1634.
Estreou no púlpito, ainda estudante, com o sermão Maria, Rosa Mística (em defesa da liberdade dos negros). Foi pregador da corte, embaixador na França, Holanda e Roma. Defendeu a liberdade do índio, do negro e do judeu, o profetismo sebastianista e combate a Inquisição. Escreveu aproximadamente duzentos sermões e quinhentas cartas.
Suas principais obras foram:
• Sermões (15 volumes)
• Historias do futuro.
• Esperanças de Portugal.
• Quinhentas cartas.
Sermões mais famosos:
• Sermão da sexagésima (1655).
• Sermão de Santo Antonio ou dos peixes (1654).
• Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda.
GREGORIO DE MATOS (1636 – 1696)
Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia. Estudou em Portugal, formando-se em Direito na Universidade de Coimbra, em 1678. Viúvo retorna para a Bahia, perto dos cinqüenta anos, levando uma vida boemia e indisciplinada. Sua sátira violenta atingio a todos os segmentos da sociedade e lhe valeu o apelido de “Boca do Inferno”. Perseguido pelo filho do governador (vitima de suas sátiras), exila-se em Angola. Em 1695, consegue retornas ao Brasil, vivendo em Recife até sua morte.
A obra de Gregório de Matos permaneceu inédita até o século XIX. Não se tem noticia de nenhum manuscrito do punho do autor ou de qualquer documento que assegure a autenticidade dos textos. Isso dificulta uma avaliação critica segura de suas poesias líricas, satíricas e religiosas.
Gregório de Matos - Religioso
A Jesus Cristo Nosso Senhor.
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido!
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Gloria tal e prazer tão repentido
Vos deu, como afirmais na sacra história:
Eu sou senhor a ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queimaras pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.