A Semana de Arte Moderna , realizada em fevereiro de 1922, inaugura a primeira fase do modernismo brasileiro. Sob as vaias e desconfianças de um público conservador, os modernistas ridicularizam o parnasianismo e apresentam novas concepções estéticas marcando uma ruptura definitiva com a arte tradicional, o que já vinha sendo preparado desde a década anterior.
Embora não tenha participado diretamente, Manoel Bandeira teve um dos seus poemas lido numa das noites da Semana. Trata-se de “Os Sapos”, escrito em 1918 e publicado em 1919, no qual afinava-se com o espírito demolidor e renovador dos modernistas.
Contexto histórico
As manifestações do período conhecido como Pré-modernismo, foram marcadas por revoltas, intervenções militares e inúmeras greves operárias. Nesse clima, Minas e São Paulo iam repartindo o poder, desfavorecendo as camadas empobrecidas da classe média e as classes trabalhadoras urbanas e rurais.
À época da Semana de Arte Moderna, o quadro geral brasileiro era de crises sucessivas, que acabaram por gerar a Revolução de 1930. O governo de Epitácio Pessoa (1919-1922) fora combatido pela própria classe dominante, contrariada por sua negação em continuar subsidiando o café, preferindo favorecer a indústria.
Em 1922, por ser “a vez” de Minas, Arthur Bernardes é indicado e eleito para presidir a República, vivendo o país, a partir de então, em estado de sítio sob regime policial. No mesmo ano, oficiais e militares rebelaram-se contra o governo, dando origem ao episódio dos 18 “do Forte”, quando quatro tenentes e catorze soldados do Forte de Copacabana enfrentaram as tropas governistas na praia de Copacabana, com a morte do civil, de dois tenentes e dos catorze soldados.
Em 1924, ocorre outro levante militar, continuidade do tenentismo. Cria-se a Coluna Prestes, que, entre abril de 1925 e fevereiro de 1927, percorreu 24 mil quilômetros, travando combates com forças governistas e jagunços contratados pelos “coronéis”. Em 1929, seus principais líderes exilaram-se na Bolívia, e Luís Carlos Prestes declarou que a luta não tinha mais sentido, pois Arthur Bernardes já não governava.
Em 1930, uma revolução conduz Getúlio Vargas ao poder, substituindo Washington Luís e dando início a uma nova fase da história do Brasil..
Entre 1922 e 1930, temos a primeira fase do Modernismo brasileiro. É claro que essa divisão obedece a critérios apenas didáticos. Os escritores desse período continuariam a produzir depois de 1930, e nos ano da primeira fase convivem em tendências opostas, algumas já manifestadas anteriormente e que se prolonga depois de 30. Com relação a essa divisão, observe o comentário de Mário de Andrade: “ Mil novecentos e trinta... Tudo estourava, políticas, famílias, casais de artistas, amizades profundas. O sentido destrutivo e festeiro do movimento modernista já não tinha mais razão de ser, cumprido o seu destino legítimo. Na rua, o povo amotinado gritava: - Getúlio! Getúlio!...”
Em 1930, têm início os quinze anos da ditadura de Getúlio Vargas. A primeira reação armada contra o regime deu-se em 1932, com o Movimento Constitucionalista de São Paulo, derrotado em dois meses pela superioridade das tropas federais. Entretanto, os revolucionários paulistas alcançaram um dos seus objetivos: a convocação de uma Assembléia Constituinte, que elaborou a Constituição de 34. Essa Constituição de caráter liberal e nacionalista, teve vida curta. Getúlio, com um novo golpe, impôs novo texto constitucional em 1937. Além disso o governo enfrentaria a Intentona Comunista, como ficou conhecido o movimento de revolta contra o governo, em 1935, liderado por Luís Carlos Prestes.
Os comunistas e os integralistas seriam, mais tarde, os grupos que dariam o pretexto a Vargas para o golpe de estado em 1937.
O Integralismo, movimento de conteúdo nazi-facista, liderado por Plínio Salgado, tem sido apontado como responsável indireto pelo golpe de 37. Os integralistas, que tinham como lema “Deus, Pátria e Família”, elaboraram um falso plano de subversão comunista (o plano Cohen), e Getúlio, utilizando-se desse documento, deu o golpe que instaurou o Estado Novo. Os líderes comunistas foram presos, o Senado e a Câmara, fechados e o novo texto constitucional, imposto à nação.
Em 1939, Getúlio criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura aos meios de comunicação.
Com o objetivo de obter apoio junto às massas, Getúlio toma uma série de medidas, configurando um estilo político ao qual foi dado o nome populismo. O país é dotado de uma legislação trabalhista e previdenciária, decreta-se o salário mínimo e adotam-se providências para a criação de um partido trabalhista.
Em 1944, é decretada a anistia para os presos políticos e são convocadas eleições para dezembro de 1945. Porém, as suspeitas de um novo golpe getulista, naquele ano, provocam o descontentamento dos militares, que num movimento liderado pelo general Góis Monteiro, depõem o ditador.
No Brasil, o período que se estende de 1945 a 1985 é marcado por uma série de fatos que causaram profundas transformações e alguns traumas na sociedade brasileira.
Esse período pode ser assim dividido:
a) Da queda de Getúlio aos anos JK (1945-1956)
Em 1945, Getúlio Vargas é deposto, depois de quinze anos de governo ditatorial. No ano seguinte , o general Eurico Gaspar Dutra assume a presidência, aleito pelo voto direto. Promulga-se uma nova Constituição, e o país retorna aos princípios democráticos.
Embora deposto, Getúlio mantém o seu prestígio popular e vence as eleições de 1950. A forte oposição ao seu governo, liderada por Carlos Lacerda, e a exigência de sua renúncia, feita pelos militares, levam-no ao suicídio, na madrugada de 24 de agosto de 1954. João Café Filho assume o poder.
b) Os anos JK (1956-1960)
Juscelino Kubitschek de Oliveira, depois de assumir o poder, em janeiro de 1956, dá início ao seu projeto de realizar “cinqüenta anos em cinco”: constrói hidrelétricas e estradas; incentiva a instalação de fábricas de automóveis, aviões e navios e constrói Brasília, para onde mudaria a capital do país em 1960.
O clima democrático, renovador e moderno do seu governo favorece as artes: surgem a Bossa Nova e o Cinema Novo, o teatro passa por profundas transformações, com o trabalho desenvolvido pelo Teatro de Arena e pelo Teatro Brasileiro de Comédia. Paralelamente, a literatura renove-se, sobretudo com Clarisse Lispector e Guimarães Rosa. É também um grande momento da crônica, com Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade. O Brasil vive momentos de alegria: Éder Jofre torna-se campeão mundial de boxe, Maria Ester Bueno destaca-se no tênis internacional e o Brasil ganha a Copa do Mundo de 58.
Em 31 de janeiro de 1961, Juscelino passa a faixa presidencial para Jânio Quadros.
c) Jânio, Jango e a ditadura (1961-1964)
Jânio Quadros assume o poder em janeiro de 1961 e renuncia sete meses depois, em 25 de agosto. Depois de muitas negociações entre políticos e militares, João Goulart (ou Jango, como era conhecido) assume o governo, sob o sistema parlamentarista, o qual limitava enormemente os seus poderes, pois a chefia do Executivo ficava a cargo do primeiro-ministro e do Conselho de Ministros, restando ao presidente apenas a função de chefe de Estado.
Com o fim do regime parlamentarista, em 1963, João Goulart resolve tomar medidas de caráter econômico e social, entre elas a regulamentação da remessa de lucros para o exterior, o projeto de reforma agrária, a nacionalização das refinarias de petróleo e a encampação de algumas empresas multinacionais que operavam no Brasil. Um golpe militar, em 1º de abril de 1964, financiado pelos Estados Unidos e por grupos de empresários latifundiários brasileiros, depõe o presidente. Uma junta militar assume o poder e impõe ao Congresso Nacional o nome do general Humberto de Alencar Castelo Branco para a presidência da República.
d)Os anos de autoritarismo (1964-1984)
Nos vinte anos que sucederam o golpe de 64, o Brasil foi governado por militares: Castelo Branco (64-67); Costa e Silva (67-69); Garrastazu Médici (69-74); Ernesto Geisel (74-79) e João Batista Figueiredo (79-84).
Trata-se de um dos períodos mais negros de nossa história, em que houve a supressão das liberdades democráticas, a cassação de mandatos políticos, a censura à impressa e aos meios de comunicação, o “desaparecimento” ou assassinato de opositores ao regime e um Congresso controlado e algumas vezes fechado ao contrair as ordens do governo. Além disso institucionalizaram-se a corrupção e as chamadas “mordomias” dos políticos e altos funcionários públicos. No plano econômico, a divida externa do Brasil, que em 1964 era de 3 bilhões de dólares, ultrapassou, no final de 1984, a casa dos 100 bilhões. A inflação de 1964 que era de 74% ao ano (o que contribuiu para desestabilizar o governo de João Goulart), atingiu cerca de 200% em 1984! A insatisfação do povo de dos empresários e a crescente crise econômica levaram a sucessivas concessões políticas, terminando com a entrega do poder aos civis.
e) A Nova República (1985-...)
Em 1985, um Colégio Eleitoral elege para presidir a república o advogado Tancredo de Almeida Neves. Tancredo falece antes de tomar posse, e em seu lugar assume o vice-presidente, José Sarney.
Inicialmente impopular e sem o apoio político expressivo, José Sarney só consegue popularidade a partir de 1986, ao implantar o Plano Cruzado, que congelou os preços e salários e introduziu o cruzado como uma nova moeda. Entretanto, sua popularidade não durou mais que um ano, graças ao fracasso da política econômica do seu governo.
Contexto Filosófico
Por razões didáticas , costuma-se dividir o Modernismo brasileiro em três fases:
Primeira fase( de 1922 a 1930) ou fase heróica: de combate e destruição, quando ocorre a libertação lingüística e são afirmados os valores estéticos do movimento;
Segunda fase(de 1930 a 1945) ou fase construtiva: de estabilização das conquistas, de preocupação social e de tendência introspectiva;
Terceira fase(de 1945 em diante) fase de reflexão: de ponderação sobre a linguagem, com o retorno a alguns modelos estilísticos tradicionais, ao que se soma uma temática universalista.
A partir de 1950, surgem novas tendências em poesia, como o Concretismo, o Neo-concretismo, a Poesia-práxis e o Poema-processo.
A explosão de fevereiro
Nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, com a participação de Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Vítor Brecheret, Anita Malfatti, Villa-Lobos, Di Cavalcanti e muitos outros, o Teatro Municipal de São Paulo torna-se o centro de uma verdadeira “atmosfera” das idéias modernistas: são lidos manifestos e poemas, expõem-se quadros e esculturas, e músicas são executadas, tudo diante de um público que reagiu com vaias e apupos. Estava “oficialmente” inaugurado o período de destruição e combate dos primeiros modernistas, que investiam, sobretudo, contra os sólidos valores parnasianos. Manuel Bandeira, que não havia comparecido, teve o seu poema “Os sapos” lido por Ronald de Carvalho, o que exemplifica a intenção dos modernistas em ridicularizar o conservadorismo parnasiano.