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Carlos Drummond de Andrade

Literatura

Carlos Drummond de Andrade – poeta pertencente à geração de 1930 e autor de uma vasta obra que o concebeu como sendo um dos maiores poetas brasileiros.
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Enlevemo-nos diante das palavras de Carlos Drummond de Andrade:

Procura da poesia

[...]

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
[...]

Fonte: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema025.htm

Quanta à pergunta do eu-lírico (“Trouxeste a chave?”), talvez para muitos essa chave ainda não possua a eficiência necessária para abrir as portas da imaginação, do aflorar dos sentimentos. Pode ser que tal habilidade esteja ao alcance somente daqueles em que a porta se encontra “escancarada”, e de lá só podemos ouvir os rumores reluzindo brilho e encantamento por meio da arte em saber lidar com as palavras e adorná-las de modo que soem melodicamente aos nossos ouvidos.

É exatamente nesse clima de encantamento e beleza que nos dispomos a falar sobre esse inigualável poeta, considerado o maior do século XX – Carlos Drummond de Andrade.

Antes, porém, estudaremos o contexto social, cultural, político e histórico que tanto demarcou a chamada geração de 30. Como é sabido, em meio às instabilidades políticas demarcadas pelo clima de insatisfação decorrente da estabilidade econômica (oriunda da classe oligárquica), que desencadeou significativas revoltas, como a de 1924 e a Revolta do Forte de Copacabana, a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, dentre outras, e, sobretudo, em meio às manifestações de uma burguesia extremamente voltada para os valores da cultura externa, foi dado o estopim para que os futuros representantes do Modernismo “lançassem seu grito de liberdade”.

E foi nesse clima turbulento que ocorreu, em fevereiro de 1922, a Semana de Arte Moderna – evento considerado o marco introdutório do Modernismo brasileiro. Tal evento veio tão somente consolidar os anseios anteriormente manifestados pelos representantes pré-modernistas. Assim, entre os objetivos que nortearam de forma unânime os participantes da Semana estava o desejo de se instaurar uma poesia representada pela liberdade formal, na qual o apego às estruturas, até então cultuadas, pudesse ceder lugar ao verso livre e às formas de composição totalmente irregulares.

Assim se deu a revelação de renomados talentos de nossas artes, os quais compuseram a segunda geração modernista, demarcada predominantemente pela poesia. Esse desapego às estruturas revelou a força-motriz para que fossem cultuados tanto os versos livres quanto as formas tradicionais. No que se refere à temática, essa tendeu a revelar-se por um caráter voltado para a universalização, tendo em vista todo um clima de insatisfação social, ora revelado pelo medo, pela perplexidade diante da ocorrência de revoltas, guerras e, principalmente, pela incerteza gerada em função da realidade circundante da época.

Situados no tempo, voltemos agora para as produções do poeta em questão, as quais, segundo a concepção de alguns críticos literários, apresentam-se divididas em três fases: na primeira, o poeta observa o mundo à sua volta e passa a registrá-lo de um modo não convencional, assemelhando-se a um ser que se vê diferentemente dos outros, deslocado por si só. Constatemos, pois, uma de suas criações:

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
[...]

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
[...]

Por meio de tais fragmentos constatamos aspectos voltados para a estética propriamente dita (versos livres), também fazendo referência ao questionamento enquanto ser.

A segunda fase de sua criação foi demarcada de forma significativa pelos sentimentos oriundos do período concernente à Segunda Guerra Mundial, em que as inquietações se fizeram prevalecer, sobretudo pela busca da própria identidade em razão dos acontecimentos que marcaram a história da humanidade. No entanto, Drummond faz disso sua razão de viver, apostando no desejo de transformar o mundo e, consequentemente, visando a uma sociedade mais justa e igualitária. Podemos constatar tais pressupostos por meio de mais de suas criações, intitulada “Poema da purificação”:

Poema da purificação
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Na terceira fase, o sentimento de inquietação do poeta, que questionava o mundo e a si mesmo, fez com que a própria poesia se tornasse também questionada, fazendo da palavra seu objeto de estudo. Mediante tal intento, percebe-se que a ideia somente existe como palavra – seu significado original. É o que encontramos numa de suas criações por nós conferidas anteriormente, e agora retomada: 

Procura da poesia

[...]

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
[...]

Após constatarmos tamanha habilidade do fazer “poético”, conheceremos um pouco sobre a vida desse artista. Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira (MG), em 1902. Formou-se em farmácia, em Belo Horizonte, onde iniciou sua carreira jornalística e poética. Em 1928 começou a carreira como funcionário público, já no Rio de Janeiro, tornando-se chefe de gabinete do Ministério da Educação no governo de Getúlio Vargas.  Mais precisamente, sua carreira literária ganhou força de expressão a partir dos anos 50, sobretudo em 1962, quando se aposentou. Após uma vasta e significativa produção, veio a falecer em 1987, no Rio de Janeiro, sendo considerado um dos maiores poetas brasileiros.


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

DEIXE SEU COMENTÁRIO
  • carlosquinta-feira | 05/02/2015 17:32Hs
    muito legaL
  • josielmasegunda-feira | 25/08/2014 08:35Hs
    Excelente!!!Adorei ;)
  • Pai de Famíliasegunda-feira | 18/08/2014 16:14Hs
    AI QUE DELÍCIA CARA
  • Claudio Drummond Martinsquarta-feira | 25/06/2014 02:58Hs
    A Sabedoria é qualidade do espirito! Carlos Drummond de Andrade é IMENSIDÃO!
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