Brasil Escola

Bulimia

Tratamento

Tratamento cognitivo Comportamental:

O tratamento Cognitivo Comportamental para os distúrbios alimentares é baseado num grupo de itens, que são usados de maneira individual, pois leva-se em consideração as particularidades de cada paciente. Os principais objetivos deste tratamento, no caso da Bulimia, consiste na interrupção do círculo vicioso, que é formado pela ingestão de grandes quantidades de alimento, seguido pela indução do vômito; para isso utiliza-se como estratégia: dar informações ao indivíduo sobre nutrição e computação de ordem médica provocadas pela indução do vômito ou uso de purgativos, pedir ao paciente que se vigie, através de um registro que deverá conter o local, horário, tipo e quantidade de alimento consumido e também, a ocorrência de binges, além de introduzir uma dieta adequada e introduzir técnicas que orientem o paciente, para que ele direcione sua ansiedade para outros comportamentos que não sejam os comportamentos purgativos.

Um outro objetivo deste tratamento é justamente reduzir a culpa que ligada aos binges, portanto orienta-se o indivíduo no sentido de que ele reconheça e entenda os sentimentos desagradáveis. O indivíduo é também estimulado a aumento do círculo de amizades, desenvolver a auto-estima, a auto-confiança, a elaboração do sentimento de culpa e a discussão sobre outros conflitos que podem ser desencadeados do quadro bulêmico.
Em casos mais graves ( quando percebe-se que o indivíduo corre risco de vida), recomenda-se a internação, sempre acompanhada de um tratamento terapêutico.
Por fim, podemos considerar ainda a utilização de psicoterapia de grupo.
Lacey é defensor desta idéia, pois acha que o grupo passa segurança e assim o indivíduo começa a explorar suas idéias e pensamentos e remove sentimentos de isolamento.

Tratamento Hospitalar:

A estrutura hospitalar é importante, pois facilita o estabelecimento de uma dieta regular, balanceada e a melhor supervisão dos comportamentos inadequados.
Os programas de tratamento em hospitais costumam usar no início técnicas comportamentais e restritivas, onde o indivíduo ganha recompensas a medida em que estabiliza seu peso e que consegue controlar o uso de métodos purgativos.
Existem reforçadores imediatos como, por exemplo, participação em determinadas atividades do hospital se apenas um número X de calorias for consumida, e reforçadores de longo prazo, como, receber visitas quando deixa de exibir métodos de purgação.

À medida que os hábitos alimentares melhoram, é dada ao paciente maior autonomia e ele pode, por exemplo, escolher suas próprias refeições, sendo também incentivado a comer fora do hospital, sozinho, com a família ou com os outros amigos.
Vários hospitais promovem, ainda, atividades em grupo. Esse procedimento age diminuindo o sentimento de solidão e a ansiedade social, além de dar ao indivíduo um feedback de seu comportamento.
Quando o paciente faz a transição para o tratamento ambulatorial, é necessário atenção, pois o indivíduo volta a ter contato com os estímulos externos. Porém se este processo de transição for realizado de forma gradual e com a ajuda da família, existirá uma possibilidade maior de se manter os ganhos já alcançados.

Envolvimento Familiar:

A colaboração da família no tratamento pode agir como um facilitador de mudanças no comportamento do indivíduo. Para isso discute-se de que forma o transtorno influi na relação entre os membros da família.
O objetivo deste tratamento é aumentar a comunicação, corrigir as percepções distorcidas, melhorar as formas de se solucionar os conflitos e fazer com que os membros da família respeitem o limite uns dos outros e suas diferenças individuais, facilitando então o processo de independência do paciente.

Tratamento medicamentoso:

A principal hipótese para explicar as causas químicas dos transtornos alimentares seria a diminuição da produção da serotonina, neurotransmissor (transmite informações entre as células) responsável pela regulação do comportamento alimentar. Dependendo do receptor, localizado na membrana
da célula nervosa, ao qual a serotonina vai se ligar, a necessidade de se alimentar pode ser inibida ou estimulada.
No caso dos transtornos alimentares, a Bulimia nervosa, predominam os receptores que levam a uma diminuição da vontade de comer.

O mais novo medicamento aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration) é o Prozac (fluoxetine), o qual inibe a recaptação de serotonina nas terminações sinápticas.

1) Indicações:
Em Bulimia, Prozac vem mostrando uma redução significante do episódio de comer compulsivamente.

2) Dosagem:
Adultos: a dosagem recomendada é de 60 mg/dia, embora estudos mostram que doses menores também podem ser eficazes.
Crianças: o tratamento seguro e eficaz em pacientes com menos de 18 anos de idade, ainda não foi administrado.

3) Precauções:
Ansiedade e Insônia:
Durante o período de tratamento, a ansiedade e a insônia foram notados em 10 a 15% dos pacientes. Esses sintomas foram a causa de 5% das pessoas interromperem o tratamento.

Mudança de Peso:
A perda significativa de peso pode ser um resultado não muito desejado no tratamento com Fluoxetine.

4) Efeitos Colaterais:
Em uma pesquisa retirada da Internet, Prozac foi receitado para 5.600 pessoas. Aproximadamente 4% destas desenvolveram erupções na pele e/ou urticária. Embora esses eventos sejam raros, eles podem se tronar sérios, envolvendo os pulmões, os rins ou ainda o fígado. Uma vez constatada a aparição de erupções na pele ou alguma outro tipo de alergia, na qual etiologia não pode ser identificada, deve-se interromper o uso de Prozac. Em pacientes que já tiveram alguma história de reação alérgica, deve-se ter um cuidado especial com o medicamento.

5) Overdose:
Náuseas ou vômitos são proeminentes em overdoses, incluindo doses altas de fluoxetine.
É recomendado que o indivíduo fique em um lugar ventilado. O carvão ativado, que pode ser usado com Sorbitol, é tão ou mais efetivo que a lavagem estomacal.
Deve-se monitorar as funções cardíacas e vitais do paciente.
Não existem antídotos específicos para Fluoxetine.
As partes ativas do Prozac demoram de 1 a 2 meses para serem eliminadas do organismo.
O fígado pode afetar a eliminação pelo organismo: em pacientes com cirroses causada pelo alcoolismo, a eliminação de Fluoxetine foi prolongada. Isso denota que o uso de Prozac deve ser administrado com cautela.

Entrevista

Realizada com a Psicóloga Neide Colleti Bruno, CRP n.º 067-6780-1

Por que existem mais mulheres do que homens que desenvolvem Bulimia?
“ Eu vejo assim, curiosamente eu trabalhei com emagrecimento, a parte psicológica, mental do emagrecimento, da dificuldade da pessoa para emagrecer e neste tempo, meu trabalho era muito focado, o que eu pude observar é realmente isso, como a fobia de dirigir, raramente você vê um homem, não existe, eu tenho 22 anos de consultório e não tive nenhum caso de fobia de trânsito que viesse buscar tratamento (homem). Tanto a fobia de dirigir quanto a Bulimia é mais comum em mulher.

E no caso da Bulimia é essa perfeição, é o corpo perfeito, é essa coisa toda de ter que manter o peso, é esse culto ao corpo, que não é nem um pouco positivo a gente sabe, eu trabalhei muito nessa área, a gente vê cada aberração, primeiro uma desinformação muito grande, você vê, querem emagrecer 10 quilos em uma semana, não dá para acreditar que tenha uma coisa dessas e tudo isso para que tenha um corpo perfeito, você tem que ser magra, esquelética, eu falo que é aquele peso da Barbie, porque se não é anormal quando a gente fala de peso tem o peso factível, é o peso da pessoa, e o peso ideal que não é aquele que você está dentro das normas de saúde, mas aquele que você se sente bem física, visual e cinestesicamente, quando a pessoa não incorpora isso, não sabe fazer esse ajuste, vamos dizer assim, como é que eu me sinto bem, ela vai buscar uma forma de emagrecimento, o corpo trabalha com um mecanismo de auto-compensação, não adianta, se faltou alguma coisa ele vai buscar de alguma forma, então vem uma vontade de comer e essa pessoa passa a comer, e o que acontece, esse é um problema genético, o objetivo é a nutrição corporal, e se a pessoa mexe com esse mecanismo – por isso é tão longo o tratamento- mexe nesse programa que é genético, se a pessoa mexe com isso ela perde seu limite de saciedade, “comi, estou me sentindo satisfeita, agora meu organismo já digeriu...vou comer de novo” ela tem no final a sensação de saciedade, na Bulimia a pessoa perde esse controle completamente, ela come come come, é genético, ela come porque tem fome, se alimenta e não deixa de engordar. Pois bem é o componente cultural que faz com que as mulheres apresentem mais esse problema, porque somos vítimas do peso.”

Podemos dizer que existe um fator desencadeante para o surgimento do transtorno ?
“Alguma coisa que mexa, que desestabiliza, então ela começa a apresentar esse problema. Eu vejo, existe um fator determinante, já existe uma predisposição, às vezes o fator não é tão evidente, a pessoa já tem uma estrutura, e se brigar com o namorado, perder o emprego, então se a pessoa já tinha uma predisposição e desenvolve o transtorno. Porém houve casos de literatura que o comportamento vai surgindo aos poucos não acontece de repente, não houve um fator desencadeante, o fator é toda a dinâmica em que a pessoa vive, geralmente nestes casos é uma dinâmica familiar muito complicada.”

A senhora acredita em pré-disposição genética?
“Não sei se há, não tenho essa informação, genético é uma predisposição, como nós sabemos para esquizofrenia e até para depressão alguma coisa assim, não tenho informação a respeito disso. Mas acredito que não. Quando você diz ter pessoas próximas, pode ser mais por modelagem, por aprendizagem, nós sabemos que o medo de barata vem da vó, bisavó, como as fobias e outros distúrbios também. Por que o que é o distúrbio? Deixando de lado a hereditariedade, é como a criança aprende a responder, a lidar com as emoções e responder aos estímulos externos, tem uma parte aí que a gente tem que dar importância, que é a aprendizagem, modelos que são próximos, modelos que muitas vezes vem de uma identificação, por exemplo, a Barbie, então aí pode surgir a Bulimia.”

Quais os sintomas mais freqüentes de Bulimia, que apareceram nos casos que a senhora tratou ?
“Quase sempre, nas experiências que eu tive, a pessoa foi trazida pela família, não é próprio a pessoa vir pedir ajuda, um “help”. Primeiro porque nós temos que pensar que em todos os distúrbios que se manifestam através do somático, isso tem uma função para a pessoa.
No caso de uma jovem que eu tive, ela foi trazida pela família. Geneticamente ela tinha uma predisposição muito grande para a obesidade, a família do pai era obesa, da mãe não, mas ela herdou os genes do pai, ela tinha muita dificuldade em manter seu peso, ela estava com 30 quilos e pouco.

O pai se chocava, porque seus amigos ficam com boatos de que ela está com AIDS, e essa história toda...ela relutou porque para ela...ela achava que ia conseguir se manter magra através da privação e depois detonando a geladeira e tinha a função principal, era enfrentar o pai, era a coisa da autoridade, ela tinha descendência alemã, então a coisa era muito rígida, e nessa família o que eu observei é que tudo se relacionava a alimentação, na linha do tempo, lá no passado, essa garotinha já tinha brigas homéricas com a mãe porque não queria levar lanche para a escola, a mãe colocava na lancheira e quando voltava da escola, a mãe ia verificar se ela tinha comido, e a menina não tinha comido, não tinha nada a ver com o problema de peso até então , pois ela era uma garotinha de 5, 6 anos. Já era a forma dela contrariar a autoridade parental, somatizando a problemática familiar. Ela era louca, a doente quando todo mundo ali estava precisando de um “help”.”

Em sua experiência qual o transtorno que mais aparece associado à Bulimia? Por que ?
“A depressão, por ser uma auto destruição...”

6) Em qual estágio de desenvolvimento do transtorno as pessoas costumam procurar ajuda ?
“A água já está no raso...quando as pessoas procuram terapia, não é só num país como o nosso em que não existe prevenção. Você não vê a pessoa te procurar e dizer “eu quero mudar, me fortalecer..” ou seja a prevenção.., então no caso de Bulimia, muitas famílias quando vai já está tarde, a pessoa já emagreceu. Normalmente os pacientes já estão com a parte biológica arrasada.”

7) Qual a abordagem que a senhora trabalha?
“Meu trabalho é muito focado, corpo mente, inclusive escrito junto, o que eu uso mais, a minha linha mestra, eu já passei por bioenergética, atualmente a minha linha mestra é a Neurolingüística, trabalha o programa da pessoa ..”

8) Quais as técnicas de intervenção dessa abordagem?
“Eu trabalho com a Neurolingüística, que lida com uma “programação”, então nós fazemos alguns exercícios onde a pessoa volta em seu passado mentalmente, e então eu proponho a ela que pense o que faria se estivesse lá novamente, nisso ela “muda” seu passado e com isso aprende a viver melhor.”

9) Qual a média do tempo usado no tratamento ?
“ O tratamento é longo, depende do paciente, como ele progride, isso é particular...mas na maioria das vezes demora...”

10) Sabemos que hoje em dia o medicamento aprovado para tratamento de Bulimia é o Prozac. Em sua opinião, quais seriam as vantagens e des-
vantagens do uso desse medicamento?
“Para algumas pessoas dá resultado a nível de peso, na perda da peso, inclusive ele é indicado por alguns médicos com o intuito de emagrecer, mas ele é um anti-depressivo e para algumas pessoas tem efeito de emagrecer e outras não. Essa moça que eu citei para vocês já tinha danos no aparelho digestivo e ela fez uso do Prozac e foi muito bom.”
11) Tendo em vista sua experiência, como a família pode ajudar no tratamento de um indivíduo bulêmico? Isso vem acontecendo na maioria dos casos?
“Na maioria das vezes a família atrapalha...a gente tem que pensar sempre no sujeito-problema, ele é o que somatiza, isso não quer dizer que ele é o mais comprometido, às vezes nem é; ele é aquele que tem coragem, que vai, que faz, que desafia, que vai procurar terapia, encontrar uma família que ajude é um sonho.”

Conclusão

Com base em toda pesquisa que foi realizada, concluímos que a Bulimia Nervosa é um transtorno que tem se tornado cada vez mais freqüente
A sociedade em que vivemos, tem privilegiado, cada dia mais, um padrão de beleza no qual a figura de destaque é aquela que ostenta um corpo magro. Esse padrão de beleza é mantido por interesses econômicos por parte das indústrias do emagrecimento, através dos meios de comunicação, que vendem a idéia de que sucesso e felicidade, só podem ser alcançados se a pessoa tiver determinada forma física.

Ao mesmo tempo é lançado no mercado um número grande de produtos de alto valor calórico e de rápido consumo, os quais estão presentes na alimentação cotidiana dos indivíduos, por diversas razões, das quais podemos destacar a falta de tempo para fazer uma refeição balanceada, saudável.
A procura por esse tipo de alimento, faz grande parte da população ter complicações com o próprio peso, levando ao desenvolvimento de transtornos como a Bulimia.
Concluímos, ainda, que a Psicologia pode agir no sentido de mostrar às pessoas que, para alcançarem seus objetivos, não é necessário estar dentro de padrões rígidos, estabelecidos pela cultura na qual estamos inseridos, mas que é preciso respeitar nossos próprios limites.

Bibliografia

KAPLAN, Harold. I.; SADOC J.; GREEB, Jack A.; Compêndio de Psiquiatria, Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica, 7ª edição, Editora Artes Médicas, Porto Alegre – RS, 1997.

RANGÉ, B.; Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos Psiquiátricos, Editorial Psy II, Campinas – SP, 1998.

NASIO, J. D.; Nos Limites da Transferência, Editora Papirus, Campinas – SP, 1987.

CID 10: Catálogo Internacional das Doenças, Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas, Editora Artes Médicas, Porto Alegre – RS, 1995.

Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), 4ª Edição, Editora Artes Médicas, Porto Alegre – RS, 1993.
Revista Brasileira de Medicina, Volume 47, Edição Especial, Dezembro de 1990.

Autora: Môni

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