Energia e mineração. A produção espanhola de hidrocarbonetos é reduzida, e concentra-se nas plataformas costeiras do delta do Ebro (petróleo) e do mar Cantábrico e do golfo de Cádiz (gás natural). As jazidas de carvão são em geral de baixa produtividade e situam-se nas Astúrias e nas zonas limítrofes dessa área com a de Castela e Leão. A maior parte da produção, decrescente e deficitária, está a cargo de empresas nacionalizadas. No sistema ibérico e na Galícia há extração de linhita, queimada para produzir energia elétrica em grandes centrais térmicas situadas junto às jazidas. Como a produção carbonífera está muito longe de satisfazer as necessidades energéticas e siderúrgicas, o país recorre amplamente às importações.
Entre os países da Europa, a Espanha foi, até determinada época, o de subsolo mais rico. Muitas jazidas, exploradas durante três milênios, como as de cobre de Huelva, continuam a produzir, mas de maneira muito reduzida. Outras como as de chumbo da região sudeste esgotaram-se no início do século XX. O mesmo pode ser dito da "montanha de ferro" das proximidades de Bilbao, que foi em sua maior parte consumida pelos altos-fornos ingleses nos quarenta anos que antecederam a primeira guerra mundial. Os lucros contribuíram para fazer do País Basco um dinâmico centro de desenvolvimento econômico.
As produções mais importantes são de ferro, zinco, chumbo, cobre tungstênio, sais de urânio, pirita e mercúrio. Os metais preciosos, abundantes à época do Império Romano, só são obtidos em pequenas quantidades, como subproduto da exploração do cobre. Há produção de sal marinho no litoral mediterrâneo e no golfo de Cádiz, onde o clima seco e ensolarado favorece a evaporação da água do mar.
A considerável produção de eletricidade é obtida em centrais térmicas, hidrelétricas e nucleares. Os grandes rios da meseta apresentam fortes desníveis nas imediações de Portugal, fato que favoreceu a construção das maiores represas da Europa ocidental.
Em certas áreas do país, as secas chegam a ter quatro anos de duração. Por isso, a política de obras hidráulicas, iniciada pelos romanos há vinte séculos, aperfeiçoada sob o domínio árabe e impulsionada desde o início do século XX, permitiu a criação de grandes áreas de irrigação, a passagem de águas da vertente atlântica para a mediterrânea ao longo de centenas de quilômetros, a regularização dos leitos e a prevenção de cheias, em grau bastante considerável.
Indústria. Os primeiros passos para a criação de uma indústria moderna foram dados na Catalunha, onde em meados do século XIX, com base numa tradição histórica que remonta à baixa Idade Média, desenvolveu-se uma florescente produção têxtil. No último terço do século XX, a exportação de ferro permitiu aos empresários bascos criar uma potente indústria siderúrgica e uma moderna frota mercante. O carvão asturiano e o zinco cantábrico também contribuíram para fazer da região o principal foco de expansão da indústria pesada. Só na década de 1950 começou a grande concentração industrial de Madri.
O estado espanhol é um agente ativo e determinante da atividade empresarial. Sob diferentes fórmulas jurídicas, controla boa parte da indústria pesada -- siderurgia, construção naval, petroquímica, produção de energia e mineração, além dos transportes e comunicações.
De maneira geral, a indústria siderúrgica e mecânica está concentrada no norte, a têxtil na Catalunha e a leve no País Valenciano. A indústria automobilística distribui-se entre Saragoça, Valladolid, Valência, Pamplona, Barcelona, Madri, Vigo e Vitória, e a de material ferroviário entre Madri, Barcelona, País Basco e região cantábrica. Os grandes estaleiros estão em El Ferrol, Bilbao e Cádiz, e a indústria química é mais importante em Bilbao, Tarragona, Huelva e Santa Cruz de Tenerife.
Finanças e comércio. O sistema financeiro do país é dirigido e controlado pelo Banco de Espanha, emissor da moeda nacional, a peseta. Algumas entidades bancárias são estatais. A rede de instituições de poupança é mais extensa do que a própria rede bancária. Madri, Barcelona, Bilbao e Valência contam com bolsas de valores.
A Espanha importa matérias-primas energéticas e produtos manufaturados e exporta produtos agrícolas e industriais. Seus principais parceiros comerciais são os países da Comunidade Européia, da qual é membro, e os Estados Unidos. O petróleo, que no início da década de 1960 provinha quase todo da Venezuela, na década de 1980 passou a ser importado do México e de países do Oriente Médio.
Turismo. Bons preços, sol quase permanente e proximidade dos países mais desenvolvidos da Europa contribuíram para criar, a partir de 1960, um gigantesco complexo turístico na costa mediterrânea do país, e também nos arquipélagos das Baleares e das Canárias. Na década de 1980, o número de visitantes ultrapassava, a cada ano, o total da população, e a tendência era crescente.
Transportes e comunicações. O comércio com o exterior é feito fundamentalmente por rodovias, quando o destino é a própria Europa, ou por mar, pelos portos de Bilbao, Gijón, Vigo, Cádiz, Málaga, Valência, Tarragona e Barcelona. O país conta com bom número de aeroportos internacionais, especialmente nas zonas turísticas. O aeroporto de Barajas, em Madri, é um dos de maior tráfego da Europa, mas durante o verão é sobrepujado pelo de Son San Juan, de Palma de Maiorca.
A rede ferroviária é ainda insuficiente para as necessidades do país. As bitolas - diferentes das do resto da Europa, à exceção de Portugal e dos países da antiga União Soviética - e os traçados das vias não permitem altas velocidades às composições.
Por não existirem rios navegáveis, exceto o último trecho do Guadalquivir, entre Sevilha e o mar, o transporte interno de mercadorias é feito quase exclusivamente por rodovias.
História
Origens pré-históricas. Restos humanos encontrados em diversos pontos revelam a presença do homem na península ibérica desde o paleolítico inferior. No paleolítico superior foram produzidas as pinturas que cobrem as paredes e os tetos das grutas de Altamira, nas montanhas cantábricas. No mesolítico, a zona mediterrânea passou por um intenso processo de povoamento e nela estão localizadas as pinturas rupestres de Alpera, Valltorta e outras que denotam um complexo cultural bastante diferente do das montanhas cantábricas.
A partir do quinto e quarto milênios anteriores à era cristã desenvolveram-se culturas neolíticas que conheciam a agricultura e o pastoreio. As culturas de Al Argar e de Los Millares se estenderam para o sudeste da península, onde são claras as influências do Mediterrâneo oriental.
No início do primeiro milênio anterior à era cristã, a península era habitada por povos muito diferentes dos que, posteriormente, foram designados pelos visitantes gregos com o nome genérico de ibéricos. Entre os séculos X e VI a.Cocorreram, na parte ocidental dos Pireneus, grandes invasões de povos celtas, que se estenderam para o norte e o noroeste da península. Mais evoluídos culturalmente, os povos que habitavam as margens do Mediterrâneo já estavam agrupados em cidades, praticavam uma agricultura complexa, exploravam jazidas minerais e mantinham um ativo comércio com civilizações do Oriente Médio.
A riqueza da misteriosa civilização de Tartessos, citada na Bíblia com o nome de Társis, possivelmente se baseava na exploração das minas de cobre de Huelva.
Colonizadores mediterrâneos. Acredita-se que a atual Cádiz tenha sido fundada como base fenícia na rota para as ilhas britânicas, em 1100 a.C. Existem vestígios de colônias fenícias, fundadas nos séculos VII e VI a. Cem vários pontos da Andaluzia, como Cádiz, Málaga, Almuñécar, Adra e outros. Foram os navegantes fenícios que introduziram na península o alfabeto, a moeda e o cultivo da oliveira.
O litoral norte foi ocupado por tribos que, embora tivessem sofrido influência céltica, pertenciam a grupos étnicos diferentes: cantábricos, asturianos e vasconços.
Os colonizadores gregos estenderam suas atividades comerciais a partir de Massália (Marselha), por toda a costa mediterrânea. Os cartagineses, que tinham ocupado a ilha de Ibiza no século VII a. Ce mais tarde se apossaram do sul e do sudeste da península, fundaram Cartago Nova (Cartagena). Em meados do século III a.Ca derrota frente a Roma na primeira guerra púnica levou Cartago a expandir-se pela península. O sítio e a destruição de Sagunto, aliada de Roma, desencadeou a segunda guerra púnica.
A Hispânia romana
A derrota definitiva de Cartago colocou o sul e o leste da península em mãos de Roma, mas a meseta central e a Lusitânia (Portugal) só foram subjugadas em 133 a.C. Os povos cantábricos e austurianos, das montanhas do norte, permaneceram independentes até que, pouco antes da era cristã, o próprio imperador Augusto comandou a luta que acabou por submetê-los.
A romanização da península foi muito profunda. A língua, os costumes e a organização social dos povos autóctones passaram por alterações drásticas. A Hispânia, como era chamada pelos romanos, converteu-se numa região abastecedora de produtos agrícolas para o império, ao qual fornecia também metais preciosos. Uma extensa rede viária cobriu o território. Aos poucos, os conquistadores foram implantando o direito romano, a moeda, o sistema social escravagista e a organização administrativa.
O cristianismo se estendeu lentamente e no século VI já constituía a estrutura social mais sólida do país.
Espanha visigoda. No ano 409, os suevos, os vândalos e os alanos atravessaram os Pireneus e se estabeleceram na Galícia, na Lusitânia e no sul da península. Ameaçado, o imperador Honório pediu ajuda ao chefe visigodo Valia que expulsou vândalos e alanos. Só um século depois os suevos foram dominados na Galícia.
O povo visigodo, o mais romanizado dos bárbaros, começou a penetrar na Hispânia, em ondas sucessivas, a partir da primeira incursão de Valia, e embora não fosse muito numeroso em relação à população hispano-romana, conquistou o poder político e econômico. No final do século VI, os visigodos, até então arianistas, converteram-se em massa ao catolicismo, professado pela população local, e pouco mais tarde os códigos legais dos dois povos foram unificados. O reino visigodo estabeleceu sua capital na cidade de Toledo, onde passaram a ser realizados, periodicamente, concílios religiosos e políticos.
Leovigildo, o mais destacado monarca visigodo, conquistou o reino suevo e combateu fortemente os bascos, os francos e os bizantinos, que tinham ocupado o sudeste da península.
Domínio mouro. Comandados por Tariq ibn-Ziyad, os árabes invadiram a península no ano 711, a partir do norte da África. A Espanha muçulmana (al-Ándalus) foi a princípio um emirado dependente do califa de Damasco, até que o emir Abd al-Rahman I separou-se politicamente de Damasco, no ano 756. A independência total, política e religiosa, só foi conseguida quando Abd al-Rahman III se proclamou califa, em 929.
Córdoba, a capital do califado, transformou-se então na cidade mais povoada, rica e culta da Europa, e todo o al-Ándalus brilhou como uma grande potência econômica e cultural, que controlava a quase totalidade da península ibérica e norte da África. Os árabes introduziram grandes aperfeiçoamentos nas técnicas de irrigação. A estrutura atual das áreas de cultivo de Valência e Múrcia é, basicamente, herança árabe. As culturas de cana-de-açúcar e do arroz foram trazidas do Oriente, e o artesanato passou por forte desenvolvimento. O comércio se expandiu e os portos andaluzes ganharam importância. A tolerância religiosa permitiu a prosperidade das comunidades judia e moçárabe (cristãos que viviam sob domínio muçulmano).
O esplendor de Córdoba, contudo, não foi duradouro, e o califado se desfez num mosaico de pequenos principados autônomos (taifas). Alguns deles alcançaram grande esplendor cultural, mas quando Toledo caiu em mãos de Afonso VI, de Castela, em 1085, a balança do poder se inclinou definitivamente para os reinos cristãos do norte.
Reinos cristãos. Apenas a cordilheira Cantábrica e os vales mais recônditos dos Pireneus escaparam da ocupação muçulmana do século VIII.
Os habitantes dessas montanhas, fundidos com o que restava da nobreza hispano-visigoda, organizaram-se em diversos núcleos de resistência, dos quais o de maior vitalidade foi o reino de Astúrias. A partir da vitória das forças do rei Pelágio contra os árabes, em Covadonga, no ano 722, começou a consolidar-se um pequeno reino cristão que, no ano 914, teve suficiente força para abandonar o refúgio nas montanhas e estabelecer sua capital em Leão.
A porção oriental do reino leonês foi repovoada por cantábricos e bascos. Submetidos a freqüentes ataques dos árabes, seus habitantes pontilharam a região de fortificações e castelos. Vem daí o nome do condado, Castela, que, a partir de suas modestas origens, submetido ao poder asturiano, se converteria no reino mais importante da península. Para defender-se da penetração árabe, o reino franco e o posterior império carolíngio apoiaram a criação de um pequeno estado-tampão na fronteira, a Marca Hispânica.
Os condados dos Pireneus centrais deram origem ao reino de Aragão, e os dos Pireneus orientais formaram mais tarde a Catalunha. Nos Pireneus ocidentais, o reino de Navarra, criado em torno de Pamplona, libertou-se rapidamente da tutela dos francos.
Os séculos XI e XII foram de rápidas conquistas territoriais para os reinos cristãos. Castela estendeu suas fronteiras do Douro até a Extremadura e a Mancha, e em 1230 uniu-se a Leão. A oeste surgiu o reino de Portugal. A batalha de Navas de Tolosa, em 1212, abriu para Afonso VII e para seu sucessor Fernando II as portas do vale do Guadalquivir, logo conquistado. Só o reino muçulmano de Granada, no sul da península, ainda resistiu por mais de dois séculos ao avanço castelhano.
Os Reis Católicos
Na segunda metade do século XV, o casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela - os Reis Católicos - consolidou a tendência para a unificação da península. Fernando e Isabel puseram em marcha um amplo plano de reformas internas, que levou à criação do primeiro grande estado moderno da Europa. A expulsão final dos mouros ocorreu com a conquista de Granada, em 1492, ano também da expulsão dos judeus e do descobrimento da América. Em 1503, Nápoles foi anexada à Espanha, e entre 1505 e 1510 os Reis Católicos apoderaram-se de Oran, Trípoli e outros portos do norte da África.
A expulsão dos judeus fez com que muitos se convertessem ao cristianismo, e eles contribuíram sobremaneira para o brilho cultural do Século de Ouro. No entanto, ao fugirem à sempre suspeita atividade econômica, dedicaram-se ao misticismo, à literatura, ao direito etc., e historiadores modernos vêem nesse fenômeno um dos motivos da insuficiência econômica que já minava o império espanhol no momento de seu máximo esplendor.
Dinastia dos Habsburgos. Em 1516, assumiu o poder Carlos I de Habsburgo, neto dos Reis Católicos, e nessa condição herdeiro, pelo lado materno, do trono da Espanha, e pelo lado paterno, do Sacro Império Romano-Germânico, do qual se tornou imperador como Carlos V. A princípio mal recebido na Espanha, por ser estrangeiro, Carlos V realizou várias conquistas e expandiu o território.
Enfrentou vitoriosamente a França, tentou impor o ideal medieval do império cristão na Europa, mas fracassou frente à rebelião protestante e teve de enfrentar o perigo turco no Mediterrâneo. Seu sucessor no trono espanhol, Filipe II, foi reconhecido rei de Portugal em 1580, e estabeleceu a união ibérica.
Filipe II criou uma imensa máquina burocrática para o domínio de seus estados e acentuou a posição de seu antecessor na defesa intransigente da igreja de Roma frente à Reforma. Incrementou a atividade dos tribunais da Inquisição, derrotou os franceses em San Quintín e os turcos na batalha de Lepanto (em 1571), mas a vitoriosa rebelião dos Países Baixos, iniciada em 1567, e o fracasso da Invencível Armada (1588), enviada contra a Inglaterra, assinalaram o início da decadência espanhola e o fracasso das idéias medievais frente à emergente burguesia protestante do norte da Europa.
Durante o reinado de seu sucessor, Filipe III, cerca de 300.000 mouriscos (muçulmanos sob domínio cristão) foram expulsos da península, privando o país de uma população ativa e próspera. Filipe IV, que o sucedeu, confiou o governo ao conde-duque de Olivares, que envolveu o país na fracassada, para a Espanha, guerra dos trinta anos. No plano interno, o plano de estender a todos os reinos ibéricos a cobrança de impostos, que já tinha arruinado Castela, provocou a rebelião de Portugal, que se separou definitivamente, com suas colônias, em 1640.
Durante o reinado de Carlos lII, que terminou em 1700, as potências européias se dispuseram a dividir os despojos do extenuado império espanhol.
Casa de Bourbon
O falecimento de Carlos II abriu a disputa pela sucessão, entre Filipe de Bourbon, neto do rei francês, e o arquiduque Carlos de Áustria. Castela e seus domínios americanos defenderam com firmeza o vencedor, que reinou como Filipe V, enquanto a coroa de Aragão aderiu ao arquiduque Carlos. Pelo Tratado de Utrecht, as possessões européias da Espanha ficaram em mãos da Áustria, e Gibraltar nas da Grã-Bretanha.
Durante o reinado de Filipe V, de 1700 a 1746, as finanças espanholas foram saneadas sob a orientação do francês Jean Aury, e parte do prestígio nacional recuperado graças aos esforços de Giulio Alberoni e do ministro José Patiño, embora o país tenha enfrentado várias guerras com as potências rivais da Europa.
Após o curto reinado de Fernando VI, de 1746 a 1759, subiu ao trono Carlos III, para nele permanecer até 1788. Empreendeu importantes reformas políticas e econômicas, a mais notável das quais foi abrir o comércio colonial a todos os portos da Espanha, o que beneficiou as nascentes indústrias da Catalunha e de Biscaia. A partir de então, o comércio com a América espanhola expandiu-se rapidamente.
O reinado de Carlos IV, de 1788 a 1808, foi marcado pelo impacto da revolução francesa e pela posterior ascensão de Napoleão Bonaparte, que veio aumentar a submissão da coroa espanhola à França.
Ao cabo de várias manobras e pressões, Napoleão forçou Carlos IV a renunciar, e o substituiu por seu irmão José Bonaparte. A população de Madri rebelou-se e deflagrou a guerra da independência. Apoiadas por corpos expedicionários ingleses, as forças espanholas lançaram um violento contra-ataque em 1812, a partir de Portugal, concluído com a expulsão definitiva do exército napoleônico, em 1813.
Terminada a guerra, Fernando VII, que permanecera na França sob a proteção de Napoleão, regressou como rei da Espanha, mas se negou a assinar a constituição liberal que durante o conflito tinha sido assinada em Cádiz, única cidade que havia resistido à invasão.
O governo absolutista de Fernando VII, monarca caracterizado pela inépcia, prejudicou ainda mais o país, já arruinado pela guerra, espoliado de seus tesouros artísticos, privado de seus homens mais capazes - que tinham sido executados, presos ou forçados ao exílio - e despojado de seus recursos nas Américas, com a rebelião das colônias.
Em 1820, uma revolta militar obrigou o rei a jurar a constituição, e durante três anos prevaleceu, nominalmente, a legalidade constitucional em um país agitado pela discórdia civil. A intervenção das potências européias, que decidiram invadir a Espanha com um exército francês, devolveu a Fernando VII o poder absoluto.
Com a morte de Fernando VII, em 1833, foi coroada sua filha Isabel, o que desagradou aos partidários de D. Carlos, irmão do rei, e deu origem ao carlismo, que perturbou o trono espanhol durante meio século. A menoridade da herdeira deu a regência à rainha-mãe, Maria Cristina, que se apoiou nos liberais e nos militares. A primeira guerra carlista terminou com a fuga de D. Carlos para a França, em 1839. O descontentamento contra a coroa fez surgir em 1854 o Partido Republicano. Dois anos mais tarde, um motim em Cádiz transformou-se em movimento revolucionário, que obrigou a rainha a exilar-se. Por ocasião da morte de Afonso XII, em 1885, o herdeiro do trono ainda não havia nascido, e a rainha Maria Cristina assumiu a regência até 1902. O pacto entre os partidos dominantes, Liberal e Conservador, permitiu ao estado superar a grave crise política decorrente da perda de Cuba, Porto Rico e Filipinas depois da guerra com os Estados Unidos, em 1898.
Primeira república
Em junho de 1869 proclamou-se uma nova constituição. Repelida a dinastia de Bourbon, foi designado rei Amadeo de Savóia, que durante pouco mais de três anos se ateve escrupulosamente à constituição. Entretanto, renunciou em fevereiro de 1873, em conseqüência das dissensões entre os partidos, do surgimento de mais uma guerra civil carlista no País Basco e na Catalunha, de uma guerra de emancipação em Cuba - um dos últimos resquícios do império colonial - e de diversos conflitos no Exército.
A Assembléia Nacional proclamou então a primeira república, que teve escassa duração.
Confrontada com a tendência separatista das províncias, com a oposição dos monarquistas e com a segunda guerra carlista, a república não se manteve e, com a intervenção do Exército, foi restaurada a dinastia dos Bourbons, sob Afonso XII, que reinou de 1874 a 1885 e aboliu os fueros (prerrogativas) bascos, último vestígio das liberdades medievais em território espanhol.
Principal artífice da restauração, o político Antonio Cánovas de Castillo fez aprovar uma constituição liberal conservadora, observada na Espanha de 1876 a 1923. Foi também de sua criação o sistema bipartidarista que, mediante eleições fraudadas em maior ou menor grau, garantiu a estabilidade civil no poder durante tantas décadas.
A Espanha iniciou o século XX reduzida a sua dimensão européia, mergulhada numa grave crise de identidade e com uma população de 18 milhões de habitantes que, em sua maioria, viviam de uma agricultura atrasada e insuficiente. A revolução industrial, no entanto, ainda que com atraso já houvesse chegado à porção oriental do mar Cantábrico e à Catalunha.
Nessas regiões, uma burguesia empreendedora, protegida pelas altas tarifas aduaneiras, valeu-se da neutralidade da Espanha na primeira guerra mundial para vender seus produtos aos países beligerantes e acelerar assim a capitalização da indústria. Foram nacionalizadas as estradas de ferro e as empresas de eletricidade e de exploração mineral, que até então tinham estado em mãos do capital estrangeiro. Surgiu, paralelamente, uma combativa classe operária, que se ligou predominantemente ao anarquismo na Catalunha e na Andaluzia, e ao socialismo em Madri e no norte do país. A vida intelectual deu mostras de extrema vitalidade, e surgiu a chamada Geração de 98, matriz dos movimentos ideológicos, artísticos e científicos posteriores.
Segunda república
A crescente agitação social, o descrédito dos partidos políticos da restauração e os fracassos da política colonial no Marrocos levaram o general Miguel Primo de Rivera a dar um golpe de estado em setembro de 1923, com o apoio de Afonso XIII, que reinou de 1902 a 1931. Como ditador, Primo de Rivera conseguiu a pacificação do Marrocos, deu impulso a obras públicas, e assim o país viveu anos de intenso desenvolvimento econômico, até que a crise mundial de 1929 se fez sentir. Afonso XIII retirou seu apoio ao ditador e a Espanha retornou à normalidade constitucional.
Em conseqüência do Pacto de San Sebastián, de agosto de 1930, socialistas, republicanos e nacionalistas uniram seus esforços e, nas eleições municipais de 1931, conseguiram vencer nas principais cidades do país. Sem apoio popular, o rei tomou o caminho do exílio, e a 14 de abril um comitê revolucionário proclamou a segunda república.
Socialistas e republicanos de esquerda triunfaram nas eleições de junho, e em dezembro foi aprovada uma nova constituição, de caráter democrático e leigo, propiciadora de reformas sociais. Nas novas eleições, disputadas em novembro de 1933, venceram, por pequena margem, os partidos conservadores, e o governo então formado, apoiado pela Confederação Espanhola das Direitas Autônomas e pelos monarquistas, paralisou as reformas iniciadas no ano anterior.
Como conseqüência, foi iniciada a revolução de outubro de 1934, rapidamente sufocada pelo governo na Catalunha, mas só a muito custo nas Astúrias. Nas eleições de fevereiro de 1936, a Frente Popular, formada por republicanos e por partidos de esquerda, alcançou ampla maioria. A reforma agrária foi acelerada, decretou-se a anistia e restabeleceu-se o governo autônomo da Catalunha. Foi quando as forças conservadoras, em contato com o fascismo italiano e o emergente nazismo alemão, começaram a preparar um golpe de estado. Eclodiu então a guerra civil.
Franquismo
Ao acabar a guerra, Francisco Franco viu-se convertido em chefe de estado de um país arruinado, com a população dizimada nos campos de batalha e nas represálias produzidas em ambas as retaguardas. As reformas mais radicais da época republicana foram anuladas; o estado se proclamou oficialmente católico e imitou o modelo totalitário dos regimes italiano e alemão.
Criou-se o partido único, a Falange, e foram proscritas todas as organizações políticas e sindicais não oficiais.
A Espanha de Franco não chegou a intervir diretamente na segunda guerra mundial, embora tenha enviado um corpo expedicionário, a Divisão Azul, à frente russo-alemã. Com a derrota das potências do eixo, Franco ficou isolado internacionalmente, mas a ausência da oposição interna permitiu-lhe manter o poder. Na década de 1940, a população espanhola enfrentou uma grave escassez de produtos básicos, e só dez anos mais tarde o país começou a recuperar os níveis de produção do período anterior à guerra civil.
A guerra fria favoreceu a situação de Franco, que pôde contar com o apoio de governos ocidentais, e em 1950 a Espanha ingressou na Organização das Nações Unidas (ONU). Na década de 1960, o país experimentou um intenso desenvolvimento econômico, favorecido pela conjuntura expansiva européia, pelos investimentos estrangeiros e pelas divisas proporcionadas por centenas de milhares de emigrantes e por milhões de turistas.
Juan Carlos I. Antes de sua morte, o general Franco designou para suceder-lhe Juan Carlos de Bourbón, neto de Afonso XIII, com o que ficaria restaurada a linha dinástica da monarquia espanhola.
Os aspectos mais totalitários do regime franquista suavizaram-se ao longo de suas quatro décadas de duração, e assim, com a morte do ditador, Juan Carlos foi proclamado rei, em 22 de novembro de 1975, sem forte oposição. Seu primeiro chefe de governo foi o último de Franco, Carlos Arias Navarro, que não foi capaz de solucionar os problemas da transição, pelo que em julho do ano seguinte foi substituído por Adolfo Suárez. Este buscou a homologação do sistema político espanhol pelos países europeus. O Parlamento eleito democraticamente elaborou a constituição de 1978.
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