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Função metalinguística

Gramática

A função metalinguística está relacionada com a abordagem do próprio código, manifestando-se em textos, poemas e artes plásticas.
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As funções da linguagem são as finalidades dos elementos presentes nos atos de comunicação verbal. Elas desempenham diferentes atribuições nos atos de interação verbal entre emissor e interlocutor e estão intrinsecamente relacionadas com a maneira com a qual nos comunicamos. Quando a preocupação do emissor está voltada para o próprio código, ou seja, para a própria linguagem, temos então o que chamamos de função metalinguística.

Quando o código é o centro da mensagem, dizemos que está presente a função metalinguística. O código, nos textos verbais, é a língua. Podemos observar a metalinguagem no poema de João Cabral de Melo Neto chamado “Poema de desintoxicação”. Nele, o poeta realiza o que chamamos de metapoesia, ou seja, a poesia fala sobre ela mesma:
 

Poema de desintoxicação

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.

Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.

Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.

O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.

Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.

Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

 

João Cabral de Melo Neto


A metalinguagem está presente também em diversas manifestações artísticas. Manifesta-se, por exemplo, nas artes plásticas quando esta fala sobre a própria pintura. Observe a tela intitulada “Autorretrato”, de Van Gogh:
 

A metalinguagem está presente no autorretrato de Van Gogh. Nele podemos observar que a tela tem por motivo a própria pintura
A metalinguagem está presente no autorretrato de Van Gogh. Nele podemos observar que a tela tem por motivo a própria pintura


Leia abaixo o texto “Palavreado”, de Luís Fernando Veríssimo, no qual o escritor faz uma interessante análise sobre a linguagem e sobre as escolhas vocabulares:
 

Palavreado

Gosto da palavra “fornida”. É uma palavra que diz tudo o que quer dizer. Se você lê que uma mulher é “bem fornida”, sabe exatamente como ela é. Não gorda mas cheia, roliça, carnuda. E quente. Talvez seja a semelhança com “forno”. Talvez seja apenas o tipo de mente que eu tenho.

Não posso ver a palavra “lascívia” sem pensar numa mulher, não fornida mas magra e comprida. Lascívia, imperatriz de Cântaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os jovens do reino para a cama real, decapitando os incapazes pelo fracasso e os capazes pela ousadia.

Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Segue-a através dos becos de Cântaro até um sumário – uma espécie de jardim enclausurado -, onde ela deixa cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porciúncula. Lipídio a segue. Vê-se num longo conluio que leva a uma prótese entreaberta. Ele entra. Lascívia está sentada num trunfo em frente ao seu pinochet, penteando-se. Lipídio, que sempre carrega consigo um fanfarrão (instrumento primitivo de sete cordas), começa a cantar uma balada. Lascívia bate palmas e chama:

- Cisterna! Vanglória!

São suas escravas que vêm prepará-la para os ritos do amor. Lipídio desfaz-se de suas roupas – o sátrapa, o lúmpen, os dois fátuos – até ficar só de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lascívia diz:

- Cala-te, sândalo. Quero sentir o seu vespúcio junto ao meu passe-partout.

Atrás de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabeça do trovador.

A história só não acaba mal porque o cavalo de Lipídio, Escarcéu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue aos sassafrás, e dá o alarme. Lipídio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarcéu o espera.

Lascívia manda levantarem a Ponte de Safena, mas tarde demais. Lipídio e Escarcéu já galopam por motins e valiums, longe da vingança de Lascívia.

*

Falácia” é um animal multiforme que nunca está onde parece estar. Um dia um viajante chamado Pseudônimo (não é o seu verdadeiro nome) chega à casa de um criador de falácias, Otorrino. Comenta que os negócios de Otorrino devem estar indo muito bem, pois seus campos estão cheios de falácias. Mas Otorrino não parece muito contente. Lamenta-se:

- As falácias nunca estão onde parecem estar. Se elas parecem estar no meu campo é porque estão em outro lugar.

E chora:

- Todos os dias, de manhã, eu e minha mulher, Bazófia, saímos pelos campos a contar falácias. E cada dia há mais falácias no meu campo. Quer dizer, cada dia eu acordo mais pobre, pois são mais falácias que eu não tenho.

- Lhe faço uma proposta – disse Pseudônimo. – Compro todas as falácias do seu campo e pago um pinote por cada uma.

- Um pinote por cada uma? – disse Otorrino, mal conseguindo disfarçar o seu entusiasmo. – Eu devo não ter umas cinco mil falácias.

- Pois pago cinco mil pinotes e levo todas as falácias que você não tem.

- Feito.

Otorrino e Bazófia arrebanharam as cinco mil falácias para Pseudônimo. Este abre o seu comichão e começa a tirar pinotes invisíveis e colocá-los na palma da mão estendida de Otorrino.

- Não estou entendendo – diz Otorrino. – Onde estão os pintores?

- Os pintores são como as falácias – explica Pseudônimo. – Nunca estão onde parecem estar. Você está vendo algum pinote na sua mão?

- Nenhum.

- É sinal de que eles estão aí. Não deixe cair.

E Pseudônimo seguiu viagem com cinco mil falácias, que vendeu para um frigorífico inglês, o Filho and Sons. Otorrino acordou no outro dia e olhou com satisfação para o seu campo vazio. Abriu o besunto, uma espécie de cofre, e olhou os pinotes que pareciam não estar ali!

Na cozinha, Bazófia botava veneno no seu pirão.

*

Lorota”, para mim, é uma manicura gorda. É explorada pelo namorado, Falcatrua. Vivem juntos num pitéu, um apartamento pequeno. Um dia batem na porta. É Martelo, o inspetor italiano.

- Dove está il tuo megano?

- Meu quê?

- Il fistulado del tuo matagoso umbráculo.

- O Falcatrua? Está trabalhando.

- Sei. Com sua tragada de perônios. Magarefe, Barroco, Cantochão e Acepipe. Conheço bem o quintal. São uns melindres de marca maior.

- Que foi que o Falcatrua fez?

- Está vendendo falácia inglesa enlatada.

- E daí?

- Daí que dentro da lata não tem nada. Parco manolo!

Luís Fernando Veríssimo. Do livro O analista de Bagé.


A partir dos exemplos dados, podemos observar que a metalinguagem é um recurso muito utilizado nas interações verbais e está presente não apenas nos textos formais, mas também em diversas situações cotidianas, quando questionamos nosso interlocutor sobre algo que ele nos conta ou explica, fazendo, inconscientemente, que ele recorra à metalinguagem para melhor se expressar. Os processos de aquisição da linguagem - adquirimos a linguagem ao longo de nossas vidas - estão especialmente relacionados com operações metalinguísticas, pois interrogamos constantemente nossa própria linguagem, ou seja, nosso próprio código.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

DEIXE SEU COMENTÁRIO
  • JHESSEM JHAMES AGUIAR DA COSTAterça-feira | 10/02/2015 23:08Hs
    GOSTEI MUITO, DE GRANDE AJUDA NÂO SÓ PARA MIM, MAS, PARA TODO AQUELE QUE ANSEIO DE APRENDER....OBRIGADO, ME AJUDOU MUITO.
  • Pedro Fidlayquarta-feira | 29/10/2014 13:02Hs
    Tão bom que utilizei alumas informações em meu trabalho de "função metalinguística"
  • Geraldo Walter Pereirasegunda-feira | 06/10/2014 15:04Hs
    Melhor texto não poderia ser escolhido pra exemplificar engrandecendo cada vez mais a nossa pesquisa. Parabéns !!
  • Charles OverStarsexta-feira | 08/08/2014 12:57Hs
    Muito Legal O Texto Mim Ajudou Bastante *-
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