Primeira guerra mundial. Iniciado o conflito europeu em 1914, a Bélgica proclamou sua neutralidade, conservada desde sua fundação como país independente, em 1831; entretanto, tropas alemãs invadiram o país em 2 de agosto, como manobra para surpreender o Exército francês. No dia seguinte, o Reino Unido, através de um ultimato, exigiu a saída dos alemães e o respeito à neutralidade belga, determinando a entrada dos britânicos na guerra. O surpreso Exército belga tentou resistir aos alemães, mas foi derrotado.
O rei Alberto I (1904-1934) formou um gabinete de guerra com representantes dos principais partidos e transferiu a sede do governo para Antuérpia e posteriormente para o Havre. Somente uma pequena porção do território belga se livrou da ocupação alemã. Com o objetivo de conter a resistência nacional, os alemães impuseram uma separação formal entre as regiões flamenga e valã.
Período entre-guerras. No fim da primeira guerra mundial a Bélgica obteve, por meio de um plebiscito que lhe foi favorável, a anexação de pequenos territórios alemães.
Na África, a Liga das Nações lhe confiou mandato sobre as colônias alemãs de Ruanda e Urundi, conquistadas por tropas belgas durante o conflito.
Na década de 1920 os católicos e os liberais antigos adversários, se coligaram para deter o avanço do Partido Socialista. Reavivou-se o sentimento nacionalista flamengo até que, no início da década de 1930, foi reconhecida oficialmente a paridade lingüística, declarando-se o flamengo como a língua oficial das províncias do norte e o francês como a da região valã. A duplicidade de idiomas tem sido causa de agitações permanentes.
O rei Alberto I foi sucedido por Leopoldo III (1934-1951). Diante do delicado panorama político europeu, a Bélgica manteve sua política de neutralidade e em 1937 conseguiu que a Alemanha, a França e o Reino Unido se comprometessem a garantir sua integridade territorial.
Segunda guerra mundial. A "guerra-relâmpago" empreendida pela Alemanha na frente ocidental levou à invasão da Bélgica em maio de 1940. Após alguns dias de resistência, em 28 de maio o rei Leopoldo III capitulou e se entregou prisioneiro aos alemães.
Entretanto, dirigentes belgas fugiram para Londres, onde encabeçaram a resistência à ocupação alemã, que durou até o outono de 1944, quando as tropas aliadas chegaram à fronteira holandesa. Os alemães tentaram ainda, em dezembro daquele ano, uma grande contra-ofensiva nas Ardenas, com o objetivo de ocupar novamente Antuérpia, que se convertera em base aliada. O ataque foi contido em janeiro de 1945, livrando definitivamente o território belga da guerra, embora algumas cidades ainda fossem bombardeadas por foguetes V-2 alemães.
O pós-guerra. O rei Leopoldo, desprestigiado pela capitulação aos alemães, cedeu seus poderes ao filho Balduíno e abdicou em 1951. Começou então uma época de grande desenvolvimento econômico no país e em toda a Europa. Mas o problema flamengo-valão ressurge periodicamente, provocando tensões e instabilidade no governo. A independência do Congo Belga (atual Zaire) em 1960 e a de Ruanda-Urundi em 1962 representou para a Bélgica um sério golpe econômico e psicológico, embora o país logo se recuperasse. Com a morte do rei Balduíno (1951-1993), assumiu o trono seu irmão, Alberto II.
Instituições políticas
Desde sua formação como Estado independente, a Bélgica tem sido uma monarquia constitucional. A constituição de 1831, emendada numerosas vezes, estabelece um poder legislativo composto de duas câmaras: a baixa, eleita diretamente pelo sufrágio universal, e a alta (Senado) formada, em partes iguais, pelo voto universal e por eleições indiretas. O poder executivo corresponde nominalmente ao rei, mas na prática é exercido por um gabinete dirigido pelo primeiro-ministro, responsável ante as câmaras legislativas.
Depois da segunda guerra mundial a Bélgica abandonou sua política de neutralidade ao integrar-se à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Organização administrativa. A Bélgica divide-se em nove províncias: Flandres Ocidental, Flandres Oriental, Antuérpia e Limburgo são de língua flamenga, ao passo que Hainaut, Namur, Liège e Luxemburgo são francófonas; Brabante divide-se em uma zona de língua francesa e outra de língua flamenga, e em seu centro a conurbação de Bruxelas, a capital, é oficialmente bilíngüe.
Sociedade
O sistema produtivo belga, altamente desenvolvido, permitiu a criação de um "estado de bem-estar", onde a maioria da população goza de assistência médica, subvenções, aposentadoria, auxílio-desemprego e outros benefícios sociais, facilitados direta ou indiretamente pelo estado. A renda média do cidadão belga é uma das mais altas do mundo. O sistema educativo assegura a escolarização de toda a população infantil. Além do ensino público há um amplo setor privado, regido fundamentalmente pela Igreja Católica.
A maioria da população é católica, embora haja uma minoria protestante e a liberdade de culto seja garantida pela constituição. A influência da igreja na vida belga reflete-se também nas grandes organizações sindicais e nas cooperativas de inspiração cristã.
Cultura
Artes plásticas. Tanto Flandres como a Valônia mostraram desde a Idade Média uma unidade cultural no campo das artes plásticas que surpreende em vista do abismo lingüístico que separava as duas comunidades. A época de maior atividade artística foi a dos séculos XV e XVI, quando a arquitetura civil gótica conseguiu nas cidades belgas algumas de suas realizações máximas. A invenção da pintura a óleo e o detalhismo realista transformaram os pintores flamengos em mestres, que em muitas ocasiões trabalharam fora de seu país, a serviço dos grandes monarcas europeus.
A arte flamenga, que a princípio correspondia ao gosto de uma próspera burguesia citadina, se manifestou visivelmente nas construções da época, impondo uma fisionomia urbana peculiar.
Jan van Eyck, Rogier van der Weyden, Hugo van der Goes e Hieronymus Bosch foram nomes destacados na primeira etapa de esplendor da pintura flamenga, que teve seu centro de irradiação em Bruges.
O Renascimento trouxe consigo, nas artes plásticas, a implantação de formas clássicas e novidades italianas. O centro de criação deslocou-se de Bruges para Antuérpia. Entre os pintores dessa época destaca-se Pieter Brueghel o Velho.
A pintura dos chamados primitivos flamengos iria influir decisivamente na pintura da Espanha, Portugal, Alemanha, norte da Itália, norte da França e Holanda. Essa influência se estenderia até o período barroco (século XVII), com Rubens. A técnica da pintura a óleo e o realismo da pintura flamenga formariam as bases da pintura de cavalete.
No século XVIII ocorreu uma perda de criatividade artística e o gosto da época voltou-se para o modelo francês, então dominante. A partir do século XIX, a arte na Bélgica ressurge, mas dentro de um contexto menos autóctone, como participante de movimentos de arte moderna.
Na arquitetura destaca-se Victor Horta, um dos fundadores do modernismo, assim como o funcionalista Henry van de Velde. Após a primeira guerra mundial surgiu um poderoso movimento expressionista, cujo representante mais inovador foi o pintor e gravador James Ensor. Paul Delvaux e, sobretudo, René Magritte alcançaram notoriedade internacional no movimento surrealista.
Música. Nos últimos séculos da Idade Média e no Renascimento, a polifonia teve extraordinário desenvolvimento nas cidades belgas, mas posteriormente sobreveio uma certa decadência. César Franck, que desenvolveu a maior parte de sua atividade em Paris, foi o mais conhecido compositor belga do século XIX. Hoje, a Bélgica conta com numerosos conservatórios, orquestras sinfônicas, temporadas de ópera e companhias de balé.
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