O governo deu apoio à campanha do general José de San Martín, que atravessou os Andes, derrotou os espanhóis em Chacabuco, e depois, com Bernardo O'Higgins, libertou o Chile nos combates de Maipú. San Martín, indiferente ao poder, ainda seguiu para o Peru e tomou parte (1824) na batalha de Ayacucho, que liquidou o domínio espanhol na América do Sul. Enquanto isso, a Banda Oriental era tomada pelos portugueses e os federalistas se sublevavam. A Assembléia Constituinte, já em Buenos Aires, reforçou o executivo e promulgou a Lei Fundamental de 1816, unitária e por isso rejeitada pela maior parte das províncias. Elegeu-se, então, o primeiro presidente da república, general Bernardino Rivadavia.
De 1825 a 1828 em guerra com o Brasil, que anexara a Banda Oriental como província Cisplatina, os argentinos, com mediação inglesa e em acordo com os brasileiros, reconheceram a independência do Uruguai. Internamente, federalistas e unitários chegavam à guerra civil: à frente dos primeiros, Juan Manuel de Rosas tomou o poder e impôs violenta ditadura (fim de 1829).
Seu governo foi tumultuado, mas militarmente bem-sucedido: derrotou os índios no sul, venceu a confederação Peru-Bolívia e enfrentou a França e a Grã-Bretanha, que respaldavam os uruguaios em constantes conflitos com a Argentina. Todavia, o governador de Entre Ríos, Justo José de Urquiza, auxiliado por tropas uruguaias e brasileiras, derrubou o ditador (1852) ao destroçar suas forças na batalha de Caseros.
Mas a desunião continuava. Contra esta, a Confederação Argentina foi fundada em San Nicolás e, em Santa Fe, preparou-se nova carta centralizadora, ainda que à revelia de Buenos Aires, que acabou por ceder à pressão exercida pelas províncias, militarmente persuasivas. Urquiza fomentou a agricultura e a educação, mas só a partir de 1862, com a eleição de Bartolomé Mitre para a presidência, iniciou-se uma etapa de mais união e prosperidade.
Houve, em seguida, a guerra do Paraguai. Em 1865, sendo a província de Corrientes invadida pelos paraguaios, a Argentina compôs com o Brasil e o Uruguai a Tríplice Aliança. Foram cinco anos de fogo e sangue, com milhares de mortos, que terminaram na vitória aliada. Com os governos de Domingo Faustino Sarmiento (1868 a 1874), que fortaleceu a administração e a escola pública, de Nicolás Avellaneda e do general Julio Argentino Roca (1880 a 1886), que acabou de esmagar a resistência indígena, o país consolidou-se politicamente e Buenos Aires tornou-se o Distrito Federal.
Século XX. Em torno de Roca e da prosperidade econômica, a organização social mostrava-se essencialmente conservadora e oligárquica, com base nos proprietários de terra e nos comerciantes: as exportações aumentavam, a imigração aproximava-se de seus melhores dias, intensificava-se a expansão do transporte ferroviário e a indústria leve já dava os primeiros passos, mas o poder e a riqueza estavam rigidamente concentrados. A crise da última década do século XIX, perturbadora, despertara revoltas. Criaram-se a Unión Cívica Radical, os primeiros núcleos de organização operária e ouviram-se as vozes do socialismo e do anarco-sindicalismo.
Havia denúncias de fraude em várias eleições. Reclamava-se a democratização do processo e, por iniciativa do presidente Roque Sáenz Peña, a reforma eleitoral instituiu, de 1914 em diante, o voto secreto e obrigatório para todos os homens. A mudança possibilitou a vitória (1916) do grupo radical. O primeiro presidente eleito de forma legitimamente democrática foi Hipólito Irigoyen, há um tempo paternalista e repressivo para com os operários, como na greve geral de Buenos Aires (1919), em que se valeu até do exército. Em seu segundo mandato, no qual sucedeu a Marcelo T. de Alvear, alcançou muita popularidade, que perdeu com a crise de 1929, de funda repercussão no país.
Nova maré conservadora inundou a Argentina, no meio de complicados problemas econômicos, sobretudo na relação com os ingleses, que no intercâmbio comercial se voltavam então quase exclusivamente para a própria Comunidade Britânica. Veio o golpe militar de 1930, de influência fascista, em virtude do qual ocuparam o poder os generais José Felix Uriburu e, em seguida, Agustín Pedro Justo, este por meio de eleições, ainda que fraudulentas.
A Argentina, que se declarou neutra na segunda guerra mundial, como fizera na primeira, foi dominada por variadas tendências de autoritarismo; civil, nos casos de Roberto Ortiz e Ramón Castillo; militar, em sucessivas experiências do período. Por pressões americanas, em 1944 teve de declarar guerra à Alemanha e ao Japão.
Por volta de 1943, começara a destacar-se a personalidade do coronel Juan Domingo Perón, que foi subsecretário da Guerra e ministro do Trabalho. Cativando especialmente os trabalhadores e descamisados, as camadas subalternas da igreja e das forças armadas, bem como uma parte do empresariado, Perón elegeu-se presidente da república em 1946, com 55% dos votos. Ajudara-o na campanha Eva Duarte (Evita), que se tornou sua mulher e tenaz colaboradora.
A ideologia peronista, chamada por ele justicialismo, configurou-se como um populismo autoritário e preocupado com a justiça social, com o progresso representado pelo desenvolvimento das indústrias, com o nacionalismo. Fizeram-se algumas reformas importantes, como a instituição do voto feminino e a criação dos sindicatos operários, mas não se fez nenhuma reforma agrária. Deu-se excessivo peso à máquina estatal e negligenciou-se a indústria pesada.
No início da década de 1950, a queda dos preços dos produtos agropecuários no mercado internacional, a inflação e o conflito com os opositores e a igreja (entre outras coisas, por abolir a obrigatoriedade do ensino religioso) fizeram com que Perón, apesar de reeleito (1951), começasse a perder terreno. Em 1952 morreu Evita, o peronismo se fez mais autoritário e foi vencido por um golpe militar.
Em novembro de 1955, o general Pedro Eugenio Aramburu restabeleceu a constitucionalidade e três anos mais tarde a população elegeu, com o apoio dos peronistas, o radical Arturo Frondizi, que logo abandonou as promessas de campanha em favor das instruções do Fundo Monetário Internacional (FMI): desvalorização da moeda, restrições ao crédito, privatização de estatais, abertura ao capital estrangeiro e contenção salarial.
Os anos seguintes são de agravamento da crise econômica. Há outro golpe militar (1962), seguido de eleições em 1963, convocadas pelo general Juan Carlos Onganía -- que excluiu os candidatos peronistas. Foi eleito Arturo Illia, derrubado logo depois, em 1966, pelo mesmo Onganía.
Este encontrou forte contestação social, inclusive o cordobazo, movimento estudantil e operário contra o governo, ocorrido em Córdoba. Com o assassínio de Aramburu pelos Montoneros, extrema-esquerda da juventude peronista, mais dois militares revezaram-se no poder, o segundo dos quais, Alejandro Agustín Lanusse, decidido a organizar eleições gerais e democráticas. Em 1972, saindo do exílio na Espanha para visitar o país, Perón foi aclamado nas ruas e fundou a Frente Justicialista de Liberación (Frejuli).
Os problemas não se resolveram antes se agravaram: elegeu-se, em 1973, o peronista Héctor Cámpora, que cedeu o lugar à eleição de Perón e sua mulher Maria Estela, conhecida como Isabelita Martínez, para presidente e vice-presidente da república. Em 1974 morreu Perón, Isabelita assumiu o governo com a economia em crise, atentados terroristas e dificuldades de todo tipo.
Os militares não tardaram em voltar à cena política, desta vez com um Processo de Reorganização Social implementado por uma junta presidida, sucessivamente, por Jorge Rafael Videla (1976), Eduardo Viola (1981) e Leopoldo Galtieri (fim de 1981 e meados de 1982).
Galtieri protagonizou o episódio das ilhas Malvinas (para os ingleses, Falkland Islands): mandou as forças armadas ocupá-las, entrou em guerra com a Grã-Bretanha e saiu derrotado, com pelo menos 800 perdas humanas. Com a queda de Galtieri e intensa campanha da opinião pública (inclusive a das mães de desaparecidos, na praça de Mayo, dois anos antes), voltou-se a questionar a repressão da ditadura militar que desmoronava suas perseguições, torturas, assassínios -- em torno de 15.000 pessoas desaparecidas. Depois da rápida passagem pelo governo do general Reynaldo Bignone, a Unión Cívica Radical elegeu Raúl Alfonsín, que conduziu o processo penal contra os ex-governantes militares, condenados e presos.
Alfonsín, no entanto, não conseguiu conter a inflação, que chegou a mil por cento ao ano em 1985. O governo lançou então um plano econômico de emergência, denominado Austral (nome da moeda que substituiu o peso). Com a inflação novamente descontrolada, nas eleições de 1989 a União Cívica Radical foi derrotada pelos peronistas. O novo presidente, Carlos Saúl Menem, tomou posse em julho daquele ano e desde logo promoveu cortes nos gastos públicos e iniciou um programa de privatização de empresas estatais. Essa política de estabilização teve a oposição dos sindicatos e foi prejudicada pelo contínuo aumento da inflação. Entretanto, em 1991 as medidas tomadas pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo, começaram a dar resultados positivos e a lº de janeiro de 1992 o austral foi substituído pelo novo peso. A estabilização econômica propiciou a reeleição de Menem em 1995.
Instituições políticas
A Argentina é uma república federativa bicameral (Senado e Câmara dos Deputados). Os partidos políticos acham-se devidamente registrados. A constituição de 1853, que persistiu apesar de inúmeras reformas, equilibrou o federalismo com um poder executivo de alta centralização.
De 1949 a 1955 prevaleceu a constituição dita peronista, que alterava a anterior com extensa legislação social e trabalhista e suprimia a cláusula que vedava a reeleição imediata do presidente da república. Tanto este como o vice-presidente são eleitos por sufrágio universal e por um período de seis anos.
O poder judicial tem como representante máximo o Tribunal Supremo, com magistrados escolhidos pelo presidente da república e ratificados pelo Senado.
Administrativamente, assim se divide o território argentino: 22 províncias; um Distrito Federal, situado na cidade de Buenos Aires; e um Território Nacional, composto pela Terra do Fogo, um segmento da Antártica e ilhas do Atlântico Sul. Os governadores de província são eleitos. Cada província tem sua constituição, seu Parlamento e seu sistema judicial, que reportam aos poderes centrais.
Sociedade
A organização social argentina distingue-se por uma característica muito particular no panorama latino-americano: compõe-se predominantemente de uma classe média europeizada, com mais de noventa por cento de católicos, padrão de vida e qualificação profissional em progresso e um eficiente sistema previdenciário e de saúde.
O espanhol é o idioma oficial do país, mas sobrevivem algumas línguas e dialetos indígenas.
Como ocorreu em tantos outros países hispano-americanos, o espanhol adquiriu, na Argentina, aspectos bastante particulares. Provavelmente por influência do italiano, aparenta maior flexibilidade e fluidez do que nas outras terras de colonização espanhola. A língua indígena mais importante é o guarani, falado na região da Mesopotâmia. Destacam-se ainda o diaguita e dialetos araucanos. Em Buenos Aires, o vocabulário popular incorporou palavras de origem italiana, termos de gíria ligados às corridas de cavalos e ao tango e um sotaque rural, dando origem ao lunfardo, que desfruta de grande autonomia em relação ao espanhol.
Na passagem da década de 1980 para a de 1990, a população argentina, apesar das sucessivas crises econômicas e político-administrativas, manteve uma taxa de mortalidade infantil significativamente baixa para os padrões ainda encontrados na América do Sul, sendo também superiores aos desses outros países seus índices de expectativa de vida e de consumo de calorias e proteínas per capita. Buenos Aires continua sendo a capital e o eixo econômico do país, mas em 1987 o Congresso Nacional aprovou uma proposta do executivo para mudança da capital para Viedma-Carmen de Patagones.
Cultura
Literatura. A literatura argentina é uma das mais importantes entre as hispano-americanas. Sua riqueza baseia-se menos em grandes nomes -- apesar de Sarmiento, Borges e Cortázar serem universalmente conhecidos --, do que em sua estrutura interna. Assim como grande parte da América espanhola, a Argentina sempre manteve relações culturais muito intensas com a Europa, da qual acompanhou todas as correntes e tendências. Esse europeísmo, no entanto, foi historicamente contrabalançado por um forte regionalismo, numa dialética que conviveu com outra ainda mais acentuada: a rivalidade entre a capital cosmopolita e as províncias rurais. A esses contrastes a Argentina deve a diversidade de sua criação literária.
Origens. Martín del Barco Centenera escreveu, em 1602, uma epopéia denominada Argentina, que deu o nome à província. Luis de Tejeda foi o primeiro poeta nascido na Argentina. Um século e meio mais tarde, a Memória sobre el estado rural del río de La Plata, do espanhol Félix de Azara, deu testemunho da pobreza e do atraso da colônia. Em 1783 foram fundados em Buenos Aires o primeiro jornal e o primeiro teatro, palcos da atividade literária de Manuel José de Lavardén, pecuarista afeito a leituras européias. Sua Oda al majestuoso río Paraná, na forma dos classicistas espanhóis, é considerado o primeiro poema genuinamente argentino.
A revolução de 1810, pela qual a Argentina se tornou independente da Espanha, produziu uma plêiade de poetas patrióticos. Juan Cruz Varela, poeta oficial do presidente Rivadavia, traduziu Virgílio e escreveu as tragédias Dido e Argia. Exilado no tempo de Rosas, refugiou-se em Montevidéu. Sua ode El 25 de mayo de 1838 é o último poema argentino no estilo neoclassicista espanhol. José María Paz, combatente cordobês contra os rosistas, ofereceu, com suas Memorias póstumas, um quadro mais realista da guerra contra Rosas que as diatribes e lamentações de seus contemporâneos românticos.
Romantismo. A queda do governo de Rivadavia e o início da ditadura de Rosas coincidiram com a primeira grande importação literária para a Argentina: o romantismo francês, por meio de Esteban Etcheverría, autor do poema Elvira o la novia del Plata e de El dogma socialista, programa dos românticos anti-rosistas agrupados na Asociación de Mayo. José Mármol, também perseguido pela ditadura de Rosas e exilado em Montevidéu e no Chile, foi um dos primeiros românticos argentinos e tido como um dos maiores poetas da "geração dos proscritos".
No romance Amalia, sua obra mais importante, entrelaça uma história de amor à história da conspiração contra o ditador. O maior dos românticos argentinos, dentre os tantos que buscaram refúgio nos países vizinhos contra a perseguição de Rosas, foi Domingo Faustino Sarmiento, cuja obra Civilización y barbarie; vida y obra de Juan Facundo Quiroga é, ao mesmo tempo, estudo sociológico, manifesto político e biografia romanceada. Tão grande estadista quanto escritor, Sarmiento foi o verdadeiro vencedor na luta contra Rosas. Seu companheiro de exílio Juan Bautista Alberdi, embora tenha participado da redação da constituição de 1853, não integrou o governo Sarmiento e passou o resto da vida entre o Chile e a Europa.
O novo romantismo francês, representado por Victor Hugo, poeta da burguesia liberal, inspirou a nova geração de poetas românticos argentinos, em cuja obra apareciam também os primeiros traços do parnasianismo à maneira de Leconte de Lisle. Olegario Andrade, autor de poemas épicos que podem parecer antiquados ao leitor moderno, foi considerado em sua época o maior do continente americano no gênero. Carlos Guido y Spano, cujas principais obras são Hojas al viento e Ecos lejanos, foi precursor dos parnasianos. Na elegia Nenia, que consta de todas as antologias de poesia hispano-americana, lamenta a derrota do povo paraguaio.
A poesia regionalista e patriótica cultivada por Rafael Obligado teria escandalizado os românticos da Asociación de Mayo. Sua obra mais festejada foi o poema Santos Vega, tradiciones argentinas. O tema gauchesco é essencialmente cômico em Estanislao del Campo, que o retoma magistralmente no poema Fausto, para descrever as emoções de dois gauchos ao assistir a uma representação do Fausto, de Gounod. José Hernández compôs Martín Fierro, o mais original poema épico da literatura do novo continente e possivelmente a maior obra da literatura argentina.
Naturalismo. Os historiadores argentinos costumam falar numa geração literária da década de 1880, a primeira, depois dos românticos, a refazer o contato com a Europa e empreender uma moderada oposição ao ambiente ainda provinciano. Seu mentor foi Paul Groussac, imigrante de origem francesa e crítico severo da produção científica e literária da Argentina de então. Diretor da Biblioteca Nacional por um período, atacou sem complacência todos os aspectos da vida argentina. Com Julián Martel, pseudônimo de José María Miró, o naturalismo inspirado em Zola ganhou seu primeiro autor na Argentina, que publicou La Bolsa, uma sátira a Buenos Aires de seu tempo. O último naturalista argentino é Roberto Payró, que superou as limitações do dogma literário de Zola. Além de romances históricos, escreveu contos publicados sob os títulos El casamiento de Laucha, Pago chico e Divertidas aventuras del nieto de Juan Moreira.
Modernismo. A renovação radical da literatura argentina no início do século XX ligou-se à prosperidade econômica do país, grande exportador de carne e trigo para a Europa, e à imigração em massa, sobretudo de italianos. Os latifundiários enriqueceram e surgiu entre eles uma elite europeizada, sensível aos valores artísticos. A imigração européia transformou Buenos Aires numa metrópole cosmopolita, convulsionada por problemas sociais. Nesse contexto, o nicaragüense Rubén Darío lançou a moda poética do modernismo. Leopoldo Lugones, autor de Las montañas de oro e Los crepúsculos del jardín, é tido como um dos grandes poetas e o maior dos modernistas argentinos.
Sua obra de vanguarda, ilustrada principalmente pelos poemas de Lunario sentimental, sofreu uma mudança radical em direção a uma temática regionalista e patriótica, que acompanhou o giro à direita de suas convicções políticas. Manuel Gálvez teve uma trajetória política e literária semelhante à de Lugones. Antes de adotar o catolicismo e o hispanismo conservador, escreveu romances naturalistas como El mal metafísico e Historia de arrabal, que caracterizam a Argentina moderna. Evaristo Carriego, pouco admirado em vida, foi descoberto pelas gerações posteriores como o grande poeta de Buenos Aires. Em Misas herejes, Viejos sermones, El alma del suburbio e La canción del barrio reage ao preciosismo e à grandiloqüência com uma poesia da vida cotidiana, dos bairros e do tango.
Pós-modernismo. O modernismo, que não teve raízes na mentalidade argentina, revelou uma tendência a se transformar em poesia acadêmica e oficial. Acadêmica é a poesia de Ricardo Rojas, também crítico e historiador da literatura argentina; de Rafael Alberto Arrieta e de Arturo Capdevila. O mestre do soneto parnasiano Enrique Banchs, que publicou apenas quatro livros, é considerado por alguns críticos como o maior lírico da literatura portenha. A poesia subjetiva de Alfonsina Storni constitui um libelo contra os preconceitos sociais e confere um traço original à poesia erótica argentina. Baldomiro Fernández Moreno cantou a cidade de Buenos Aires com perfeição parnasiana e foi prolífico em sonetos, entre os quais se destaca pela originalidade o "Soneto de tus vísceras". Florida e Boedo. Depois do final da primeira guerra mundial, a dissolução dos valores tradicionais levou a cena literária argentina a um enfrentamento protagonizado por dois grupos antagônicos.
O Florida, integrado por vanguardistas, estetas e conservadores, teve como porta-voz as revistas Proa e Martín Fierro. Boedo, o grupo dos realistas, jornalistas e socialistas, publicavam Claridad. O maior nome do grupo Florida é Jorge Luis Borges, autor de alguns dos mais impressionantes contos fantásticos da literatura universal, mas cuja importância para a história da literatura reside na poesia que domina a primeira fase de sua carreira. Borges trouxe para a Argentina os processos poéticos da vanguarda espanhola, introduzindo no país o movimento ultraísta, nascido na Espanha e ligado ao dadaísmo francês. O mais importante seguidor de Borges é Adolfo Bioy Casares, romancista que reúne o gênero policial à ficção científica. Outros membros do Florida foram Macedonio Fernández, Oliverio Girondo e González Lanuza.
O grupo de Boedo definiu-se mais pela tendência que pelo estilo. O estudante Héctor Ripa Alberdi, líder da revolta estudantil de 1918, manifestou ainda em versos tradicionais o novo idealismo vagamente socializante. Outros dos escritores mais conhecidos do grupo foram Álvaro Yunque e Elías Castelnuovo, cujo desprezo pela forma os deixou em desvantagem em relação ao grupo de Florida. O maior dos escritores do Boedo foi, no entanto, Roberto Arlt, influenciado pela crítica social dos escritores americanos e pela leitura dos grandes autores russos.
Época atual. Subsistem na literatura argentina contemporânea, sob outros nomes, a influência dos grupos Florida e Boedo. Ricardo Molinari, que pertenceu ao primeiro desses grupos, é um dos grandes poetas da atualidade. O poema Juan Nadie, vida y muerte de um compadre, de Miguel Etchebarne, foi proclamado por Borges a realização total do ultraísmo argentino. A outros, no entanto, o movimento parece definitivamente sepultado. Daniel Devoto experimentou formas inovadoras, Antonio di Benedetto segue a receita do nouveau roman francês e María Elena Walsh confessa a influência de Rimbaud. Ernesto Sábato, intelectual e crítico, cria personagens tipicamente argentinos que enreda em tramas psicológicas de inspiração surrealista. Julio Cortázar, que é discípulo literário de Borges, se encontra politicamente no campo oposto.
A alteração dos limites temporais e espaciais no texto realista fez dele um dos renovadores da narrativa do século XX, para a qual contribuiu com obras magistrais como Rayuela e Libro de Manuel. O mais popular dos escritores argentinos da atualidade talvez tenha sido Manuel Puig, que viveu em Nova York, no Rio de Janeiro e no México. Alguns de seus romances -- Boquitas pintadas, O beijo da mulher aranha -- foram adaptados para cinema e teatro com grande êxito.
Artes plásticas. Na arquitetura, como nas outras artes, os argentinos procuram sua própria fisionomia. Do barroco espanhol e dos edifícios de influência italiana ou francesa chegaram à contemporaneidade de Amancio Williams que, a partir de Le Corbusier, lançou as bases de um estilo urbano que refletia e incorporava as características nacionais. Na pintura e na escultura, os começos vêm igualmente da Europa, mas já na segunda metade do século XIX a litografia de um Carlos Morel é toda de inspiração nacional.
No início do século XX essa fidelidade se acentua nas obras de Bernaldo de Quirós e Fernando Fader, impressionistas, enquanto se assimilam as novas técnicas e tendências. Nas últimas décadas, o surrealismo do grupo Orión, a arte abstrata e a arte concreta adquiriram expressões originais, particularmente nos trabalhos de Tomás Maldonado e Raúl Soldi.
Música. O tango é, talvez depois do jazz, a mais valiosa manifestação da música popular urbana do século XX. Sua importância para compositores como Stravinski, e a arte de Astor Piazzolla o confirmam. Nos gêneros sistemáticos, a música argentina principia com Francisco Hargreaves, autor de La gata blanca, primeira ópera nacional. O movimento nacionalista surge pouco depois com Alberto Williams (Aires de la pampa) e cresce com Julián Aguirre, Carlos López Buchardo, Floro Ugarte, Manuel Gómez Carrillo, Constantino Gaito, Honorio Siccardi.
O Grupo Renovación representa a busca de novas técnicas, destacando-se em seguida Roberto García Morillo, Carlos Suffern, Roberto Caamaño, Antonio Tauriello e, sobretudo, Alberto Ginastera, internacionalmente reconhecido. Cinema. O cinema argentino desde seus primeiros passos trabalhou com a cultura gaucha e portenha. Começou pelas mãos de um francês, Eugenio Py, autor de documentários sobre o país. No decorrer do século, com apoio oficial, tornou-se um dos mais significativos dos países latino-americanos. Depois dos pioneiros Eugenio Cardino e Mario Gallo, o primeiro sucesso popular foi o filme Nobleza gaucha (1915), do trio Humberto Cairo, Eduardo Martínez de la Pera e Ernesto Gunche, inspirados no poema Martín Fierro.
A maturidade veio com as obras de Maglia Barth, Mario Soffici, Manuel Romero, Luis Saslavski, Hugo del Carril, Leopoldo Torres Ríos. Do final da década de 1950 em diante, Leopoldo Torre-Nilsson (filho de Torres Ríos), Fernando Ayala, Fernando Solanas e outros cineastas renovaram e aprofundaram os caminhos da arte cinematográfica argentina, que ultimamente ainda produziu filmes como Camila (1984) de María Luisa Bamberg e La historia oficial (1985), de José Luis Puenzo.
Pensamento. Os pensadores jesuítas da Universidade de Córdoba, no século XVII, desenvolveram as idéias de Francisco Suárez e o pensamento escolástico, que viriam a ter uma longa linha de continuidade com as filosofias cristãs e neotomistas.
No século XVIII, difundiram-se as idéias do iluminismo europeu. Montesquieu, Rousseau, Locke, Leibniz e Hume encontraram seguidores como Cayetano Rodríguez e Elias del Carmen Pereira. A influência francesa tornou-se mais acentuada depois da independência, quando os argentinos se dispuseram a pesquisar a natureza e as raízes filosóficas de sua nacionalidade.
O pensamento argentino não se limitou a reproduzir e desenvolver os grandes sistemas filosóficos europeus, mas imprimiu uma marca original às idéias nascidas nas grandes metrópoles culturais.
Esteban Etcheverría foi a maior expressão nacional do pensamento utópico; Domingo Faustino Sarmiento, do naturalismo; Juan Bautista Alberdi, do empirismo e Carlos Astrada, do materialismo dialético. Cabe mencionar o historiador da filosofia Rodolfo Mondolfo, o evolucionista José Ingenieros e o personalista Emilio Estiú.
Dentro da atividade intelectual cumpre ainda destacar o importante trabalho de pesquisa científica desenvolvido por argentinos, especialmente na área da matemática (Rey Pastor e Enrique Butti), da química (Luis Leloir, Prêmio Nobel de 1970), da medicina (Bernardo Houssay, Prêmio Nobel de 1947, e mais Enrique Finochietto e Gregorio Aráoz Alfaro) e da filosofia da ciência (Mario Bunge).
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