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Clarice Lispector

Biografia

Literatura Infantil III
Nome: Meire Oliveira Silva. N.USP: 2931771
Monografia: Clarice Lispector – Sua obra infantil e as marcas distintivas de sua obra para adultos. 

Vida:

BIOGRAFIA
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, na aldeia Tchetchenilk, no ano de 1925. Os Lispector emigraram da Rússia para o Brasil no ano seguinte, e Clarice nunca mais voltou á pequena aldeia. Fixaram-se em Recife, onde a escritora passou a infância. Clarice tinha 12 anos e já era órfã de mãe quando a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Entre muitas leituras, ingressou no curso de Direito, formou-se e começou a colaborar em jornais cariocas. Casou-se com um colega de faculdade em 1943. No ano seguinte publicava sua primeira obra: “Perto do coração selvagem”. A moça de 19 anos assistiu à perplexidade nos leitores e na crítica: quem era aquela jovem que escrevia "tão diferente"? Seguindo o marido, diplomata de carreira, viveu fora do Brasil por quinze anos. Dedicava-se exclusivamente a escrever. Separada do marido e de volta ao Brasil, passou a morar no Rio de Janeiro. Em 1976 foi convidada para representar o Brasil no Congresso Mundial de Bruxaria, na Colômbia. Claro que aceitou: afinal, sempre fora mística, supersticiosa, curiosa a respeito do sobrenatural. Em novembro de 1977 soube que sofria de câncer generalizado. No mês seguinte, na véspera de seu aniversário, morria em plena atividade literária e gozando do prestígio de ser uma das mais importantes vozes da literatura brasileira.

Obra:

O objetivo de Clarice, em suas obras, é o de atingir as regiões mais profundas da mente das personagens para aí sondar complexos mecanismos psicológicos. É essa procura que determina as características especificas de seu estilo.
O enredo tem importância secundária. As ações - quando ocorrem - destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. São comuns em Clarice histórias sem começo, meio ou fim. Por isso, ela se dizia, mais que uma escritora, uma "sentidora", porque registrava em palavras aquilo que sentia. Mais que histórias, seus livros apresentam impressões.

Predomina em suas obras o tempo psicológico, visto que o narrador segue o fluxo do pensamento e o monólogo interior das personagens. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome.

As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado - pelo menos inusitado para a personagem. Aí ocorre a “epifania”, classificado como o momento em que a personagem sente uma luz iluminadora de sua consciência e que a fará despertar para a vida e situações a ela pertencentes que em outra instância não fariam a menor diferença.

Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre.
Para Clarice, "Não é fácil escrever. É duro quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados". "Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas". "Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo."

Obra:

Romances:

Perto do Coração Selvagem, RJ, A Noite, 1944.
Lustre, RJ, Agir, 1946.
A Cidade Sitiada, A Noite, 1949.
A Maçã no Escuro, RJ, Francisco Alves, 1961.
A Paixão Segundo G.H., RJ, Francisco Alves, 1964.
Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, RJ, Sabiá, 1969.
A Hora da Estrela, RJ, José Olympio, 1977.


Contos e crônicas:

Laços de Família, RJ, Francisco Alves, 1960.
A Legião Estrangeira, RJ, Ed. do Autor, 1964.
Felicidade Clandestina, RJ, Sabiá, 1971.
A Imitação da Rosa, RJ, Artenova, 1973.
A Via-Crucis do Corpo, RJ, Artenova, 1974.
A Bela e a Fera, RJ, Nova Fronteira, 1979.

Literatura infantil:

Mistério do Coelho Pensante, RJ, J. Álvaro, 1967.
A Vida Íntima de Laura, RJ, Sabiá, 1974.
A Mulher que Matou os Peixes, RJ, Sabiá, 1969.
Quase de Verdade, RJ, Rocco, 1978.

"Meus livros felizmente para mim não são superlotados de fatos,
e sim da repercussão dos fatos nos indivíduos.
Eu me refugiei em escrever. Acho que consegui devido a uma vocação bastante forte e uma falta de medo ao ser considerada
diferente no ambiente em que vivia."

“Com sete anos eu mandava histórias e histórias para a seção infantil que saía às quintas-feiras num diário. Nunca foram aceitas."

OBRA INFANTIL DE CLARICE LISPECTOR

A literatura de Clarice Lispector para crianças, com sensibilidade quase maternal, cria um clima de aconchego e conforto, como se a cada vez que as páginas do livro fossem abertas, as crianças leitoras se sentissem como que entrando na sala de visitas da casa da autora e fossem ouvir uma história bem criativa com todo aquele ar de intimidade. Como se a história fosse contada por alguém bem próximo e bem querida: a mãe, a tia, a avó, o pai, etc. Alguém em quem a criança confiasse “sentar” ao lado para ouvir uma historinha e deixando-se levar pela narração. Isto está bem evidente na hora em que a narradora, em “A mulher que matou os peixes” diz:

“Sabem de uma coisa? Resolvi agora mesmo convidar meninos e meninas para me visitarem em casa. Vou ficar tão feliz que darei a cada criança uma fatia de bolo , uma bebida bem gostosa, e um beijo na testa.”

O clima de intimidade, próprio para ganhar confiança vem do modo como ela “dialoga” com criança através da obra. Como no mesmo livro “A Mulher que Matou os Peixes”, logo no início antes de contar a história vem a frase:

“Antes de começar, quero que vocês saibam que meu nome é Clarice. E vocês, como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e meu coração vai ouvir.”

E esse recurso estilístico se repete várias vezes. As digressões ou os supostos diálogos da narradora com o leitor predominam em relação às ações da própria narrativa. Clarice Lispector parecia estar ciente de como penetrar no Universo Infantil de modo seguro e que não fizesse em momento algum com que o pequeno leitor se sentisse ‘sozinho’ ao ler a história – na verdade, a impressão de que a narradora é uma companhia está muito presente, tal a intimidade oferecida pelo texto. Como em uma das passagens de “O Mistério do Coelho Pensante”, a confiança a ser conquistada é uma prioridade. E pode-se estabelecer uma analogia:

“Coelho é como passarinho: se assusta com carinho forte demais, fica sem saber se é por amor ou por raiva. A gente tem que ir devagar para ele ir se acostumando, até que ele ganha confiança.”
(MCP)

Da mesma forma a narradora começa a narrativa aos pouquinhos, sempre fazendo intervenções ao longo dela até que o leitor se veja completamente envolvido, e, isso também é muito característico de sua obra direcionada à camada adulta. Numa linguagem simples e recheada por onomatopéias, metáforas, aliterações e outros recursos de linguagem, suas fábulas encontram meios de profunda identificação com a criança. Em “O Mistério do Coelho Pensante”, Joãozinho, é um coelho que pensa e tem idéias brilhantes e que ninguém sabe de onde vêm, e, por isso permanecem os “mistérios” do começo ao fim do livro. Laura, de “A Vida Íntima de Laura”, também pensa. Apesar de “burrinha”, tem “pensamentozinhos e sentimentozinhos”, e até cacareja assim: “Não me matem! Não me matem!” Ulisses de “Quase de Verdade” é o cachorro que “poupa” o trabalho de Clarice ao contar a história, ou melhor, de ser o narrador.

É sabido, bonito e com seu “au- au-au” expressa tudo o que está sentindo, achando ou pensando. Só em “A mulher que matou os peixes” que não existem animais falantes e é também, juntamente ao “Quase de Verdade”, o único livro infantil de Clarice Lispector – entre os outros quatro livros citados – narrados em primeira pessoa o tempo todo. Têm um narrador protagonista que conta os fatos através das memórias de suas experiências. E parece também, que em “A Mulher que Matou os Peixes”, que ela alcança maior empatia com os leitores –mirins. Nesta obra, a narradora se “expõe totalmente” em busca da justificação do crime que traria sua absolvição por ter matado os peixes. Mas, em geral, as narrativas apresentam uma linguagem muito próxima à da criança, seja com suas repetições de idéias ou termos quando deseja frisar algum tópico importante e nem sempre encontra recurso adequado para isso.

Essas repetidas vezes são responsáveis pela facilidade com que as passagens são entendidas e interpretadas pelas crianças.
São narrativas simples e que mesmo tendo alguma ação se concentram – a exemplo de suas narrativas para adultos – muito mais nos “aspectos psicológicos” das personagens fantásticas. Nessa mistura de fantasia e realidade, o íntimo de cada personagem é sondado por uma análise meticulosa ou o uso de uma linguagem tão próxima à criança que torna essa “análise” feita por ela própria. As ações parecem ser meros pretextos para o desenvolvimento de uma minuciosa – obviamente muito mais ‘descomplicada’ – análise de um perfil psicológico dentro da história, sem deixar, mais uma vez, de comparar essa problemática de sua obra infantil com sua obra para adultos.
Essas fábulas, assim como as todas as demais, uma vez ou outra podem ter um cunho moralizante: como em Laura, a galinha, que apesar de ser muito feia e burra tem um grande coração, aliás clichê aludindo ao fato da beleza interior ser mais importante do que a exterior:

“A verdade é que Laura tem o pescoço mais feio que já vi no mundo. Mas você não se importa, não é? Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro.”
(VIL)

Em “Quase de Verdade”, também a nuvem Oxélia deixa ao final da história de ser ruim ao chover. Sua cor preta de nuvem carregada de chuva torna-se branca como nuvenzinha de verão. Assim também como o cachorro Bruno mata o cachorro Max, em “A Mulher que Matou os Peixes”, num acesso de ciúmes pelo dono. Acaba sendo morto pelos outros cachorros da vizinhança em ‘vingança’ algum tempo depois. Todas essas histórias são baseadas em fábulas originais, mas com um toque todo pessoal de Clarice Lispector.

ANÁLISE DE CADA UMA DAS OBRAS INFANTIS:

A VIDA ÍNTIMA DE LAURA

Laura é muito “burrinha”, mas infinitamente bondosa, “muito da simples” e também a “galinha mais simpática que já vi”. No caso, quem disse que viu foi Clarice Lispector, que é identificada na história como um narrador que tudo observa de um de ângulo central, de onde tudo é mostrado diretamente. Assim como todos os romances ou contos de sua autoria.
Laura é uma galinha casada com o galo Luís. Ambos são muito vistosos e simpáticos, mas não cheiram bem. Laura põe muitos ovos, enquanto Luís canta muito bem e gosta muito dela. Ela é uma galinha muito bonita por dentro apesar de Ter um pescoço muito feio, mas o que realmente importa são seus “pensamentozinhos e sentimentozinhos”. Ela tem muito medo de que um dia a matem e por isso “sai cacarejando feito uma doida”: “Ela cacareja assim: Não me matem! não me matem!


Mas não a matam porque ela pões muitos ovos. Certa vez, ela pôs um ovo, do qual nasceu um pintinho muito amarelo – chamado Hermany – e que logo já pegou a mania da mãe: comer, comer, comer! A galinha Laura também se protegia à sua maneira: fazia um barulhão cacarejando. Os galos, logo incentivados berram, afugentado o ladrão pela barulheira que acordava a casa inteira, que logo acendia todas as suas luzes. Outro dia a cozinheira disse à Dona Luísa – dona de Laura – que a galinha já estava ficando velha e não botando mais tantos ovos e que era melhor ela virar comida: galinha ao molho pardo. Mas Dona Luísa não tinha coragem de comer Laura de jeito nenhum.
Laura também chegou a conhecer Xext – um jupteriano – já que era uma galinha muito simpática. Conversaram e ela acabou por lhe fazer um pedido: disse que se seu destino fosse virar comida, queria é ser comida por Pelé. Xext foi embora e Laura continuou com sua vidinha muito gostosa.

ERA UMA VEZ OS “PENSAMENTOZINHOS” DE UMA GALINHA
“MUITO BURRINHA”

Numa linguagem que cria um clima todo especial de cumplicidade e aconchego Clarice Lispector narra o dia-a-dia de Laura, uma galinha “muito burrinha”, de pescoço muito feio mas com uma bondade enorme que guarda “sentimentozinhos e pensamentozinhos”. Clarice já abre o livro com a explicação do que viria a ser o significado do termo “vida íntima” do título do livro, depois ao dizer que vai contar a vida íntima de Laura. E seguido de uma adivinhação muito gostosa:

“Agora adivinhem quem é Laura.
Dou-lhe um beijo na testa se adivinhar.”

Logo após revela que o nome Laura pertence a uma galinha, deixando o clima mais descontraído e envolvente. Palco perfeito para o desenrolar das aventuras de Laura. Com várias passagens em que dialoga com o leitor e faz suas próprias observações, a história se aproxima muito mais da contada oralmente - usando argumentos e recursos que estão muito presentes na linguagem falada – do que da história que é simplesmente escrita.
Laura, apesar de uma galinha, nessa história ela “cacareja assim: não me matem! Não me matem!”. Além de viver sempre apressadinha e “basta-lhe cacarejar um bate-papo sem fim com as outras galinhas”. Além destes, outros inúmeros exemplos de personificações e tratamento desses animais fabulosos como seres humanos estão presentes no texto inteiro. Inclusive os efeitos moralizantes, típicos de fábulas, como amar alguém pelo que é interiormente, mas pelo seu exterior. Amar o que a pessoa representa e não somente aparenta ser. Como na passagem:

“Mas elas (as galinhas) não desprezam a carijó por ser de outra raça. Elas até parecem saber que para Deus não existem essas bobagens de raça melhor ou pior”.

Mas em outros momentos da narrativa, parece que a narradora brinca um pouco com o fato de esta ser uma história infantil moderna, e que nada tem a ver com contos de fadas. Como na passagem, que começa por “Era uma bela noite feliz...” que em seguida é arrematada por “Bela coisa nenhuma! Porque foi terrível! Um ladrão de galinhas tentou roubar Laura....” E a narrativa continua normalmente depois dessa irônica frase parodiando os contos de fadas tão conhecidos pelas crianças. Outra característica é a recorrência sempre ao nome Laura e aos pronomes que a ela se referem, juntamente com as várias paronomásias e aliterações, como figuras de expressão, que ao brincar com os sons produzem a beleza interior e fundamental que condiciona o texto. Em outras passagens, é comum o nivelamento entre ser humano e animal, como por exemplo quando o momento que enquanto as galinhas cacarejavam, o galo Luís “berrava”, entre outras muitas passagens desse tipo.
O universo íntimo de Laura também parece ser bem trabalhado, já que ela quase não age e todas a narrativa se origina em torno de seus “pensamentozinhos”. Suas ações traduzem suas aspirações:

“Laura, toda satisfeita, esfregou suas penas com o bico para alisar – igual como a gente penteia os cabelos. Porque ela é muito vaidosa e gosta de estar bem arrumada.”

Tudo se desenvolve a partir dos olhos de Laura que tudo observava: adultos, galinhas e, até mesmo, um visitante de Júpiter. Visita essa que mostra como Laura apesar ‘de pensar que pensava’, ela pensava mesmo. Seus “pensamentozinhos” eram tão rápidos quanto o narizinho do coelho Joãozinho. O habitante também só a “escolhera” em sua imaginação, porque ela pensava, ou como Clarice descreve, porque “não era quadrada.” Laura também esperava por um dia, se seu destino fosse virar comida, que fosse comida pelo menos por Pelé. E aqui é possível também, estabelecer relação entre Laura e a galinha do conto “Uma galinha”, do livro “Laços de Família”, que por botar muitos ovos quase não é morta.

“O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE”

Esta é uma história sobre coelhos feita sob o “pedido - ordem” de Paulo – um dos filhos de Clarice Lispector. Ela vai descrevendo o coelho como um bichinho muito branco, que não falava, mas que tinha “algumas idéias” com o nariz – franzindo-o e desfranzindo-o. Por isso seu nariz era cor de rosa –de tanto se mexer. Também era rápido, mas a sua cabeça não, por isso não era verdade que ele pensava sem parar. O nome do coelhinho era Joãozinho e contanto que fosse amado, não se incomodava de ser burrinho. Sua natureza era de coelho (Natureza de coelho é um termo que Clarice explica às crianças nas páginas do livro assim como o faz com qualquer outra palavra diferente), e, devido a ela Joãozinho podia ter filhinhos muito mais rápido – com rapidez quase igual àquela com que é capaz de franzir o nariz – do que de gente. A idéia de Joãozinho foi a de fugir da casinhola todas as vezes em que lá o deixassem sem comida – sua natureza só era esperta para as coisas de que ele precisava. Mas como fugir pelas grades estreitas se ele era tão gordo, além de ser tão branco? Foi então que ele teve, ao franzir rapidamente o nariz, uma idéia tão boa que nem uma criança poderia ter... e aí é que está o mistério: ninguém sabe que idéia foi essa! E mesmo passando a ter cada vez mais comida em seu prato, Joãozinho fugia. Sua vidinha passou a ser comer, fugir, “ter cara de bobão e ser lindo!”

O FASCÍNIO DA DESCOBERTA DA IMAGINAÇÃO

Nessa história que se inicia pelo “pedido-ordem” de Paulo, um dos filhos de Clarice Lispector se tornando o seu primeiro livro infantil. Nesta obra a mensagem de Clarice para as crianças não se difere muito daquelas presentes em seus contos ou romances para “adultos”. Joãozinho, quando preso numa casinhola que com o tampo muito pesado e sem porta e ainda com grades estreitas que impediam a sua passagem porque ele “além de branco, era gordo. É claro que não podia passar pelas grades”. Impossível a fuga do coelhinho! Ou quase... Aí está o mistério do título, que as páginas do livro não revelam, mas sugerem. O coelho Joãozinho assim como a galinha Laura não ‘pensa muito bem’, mas tem muitos sentimentos e é tão esperto que tem coisas que chegou a fazer que eram realmente muito misteriosas. “Nessas horas é que virava um coelho pensante.” E o mistério encontra resposta nesses pensamentos. Assim como Laura ele usa a força dos “pensamentozinhos”, só que para fugir! Fugir pela imaginação. Como Lúcia Pimentel Góes explica:

IMAGINAÇÃO=IMAGINAR+AÇÃO.

“A Imaginação estabelece com a realidade um diálogo constante. Ação de imaginar que alimenta nossa imaginação criadora.”
(“Olhar de Descoberta”, pp. 16)

É interessante destacar que na edição da editora Siciliano, de 1993, a ilustração do livro, quando o “coelho” foge sugere a fuga pelo poder da imaginação, já que a figura mostra um fundo branco atrás, com muitas nuvens e o coelho como que voando. Perfeita imagem que sugere exatamente o que a escritora desejava. O mundo dos sonhos e da imaginação que possibilitavam a fuga de Joãozinho. Também quando o narrador descreve a vida do coelhinho, logo após a descobertas desse misterioso mundo mágico:

“Pouco a pouco a vida de Joãozinho, passou a ser a seguinte: comer bem e fugir, sempre de coração batendo. Um programa ótimo. Ele fugia, as crianças o agarravam, ele tinha comida, ele era muito feliz. Era tão feliz que às vezes seu nariz mexia tão depressa como se ele estivesse cheirando o mundo inteiro.”

A exemplo de sua obra para adultos, o tema recorrente aqui é o aprisionamento do homem moderno, que é um fator que sempre existiu, ou da condição humana, sempre presa e em busca pela liberdade ilimitada, que acaba se tornando uma nova prisão. Mas, com o coelho Joãozinho, tudo se torna apenas uma histórinha infantil muito criativa. E é este mundo de fantasias convidativo que leva a criança a se aproximar do texto com um novo olhar, já que ela já é acostumada a ver o mundo de um ângulo só dela. Deixar bater sempre o seu coraçãozinho, assim como o de Joãozinho: sempre imaginando e “de coração batendo”. Numa obra como “O Mistério do Coelho Pensante”, ela pode fazer mais: trazer o seu mundo de fantasias para dentro da obra, e esse mundo encantado para sua vida real. Descobrindo, porém o prazer da leitura, e disto Clarice parece saber muito bem, porque desenvolve uma narrativa muito doce, mesmo que sempre levando em consideração a profunda influência dos temas que sempre rondam seus temas adultos.

Nesse caso, o aprisionamento do coelhinho e a imersão dele em seu próprio ‘eu’ para uma seguida fuga de si mesmo. Redundante e paradoxal... porque a impressão que temos quando isso ocorre é que ele está dilacerado, dividido em dois e mais uma vez um tema constante da obra lispectoriana. Mas, sondada só pelo fascínio que exerce por si própria e não radicalmente pelas suas entrelinhas, esta história se destaca pelo incrível poder que tem de resgatar essa imaginação da criança que existe (usando um clichê, uma expressão desgastadíssima) dentro de cada um adulto. Porém, quando é “corrompido” pela dureza do mundo, experimenta a petrificação dos sentimentos. Como Alfredo Bosi ao traduzir Marx, revela:

“O homem não pode voltar a ser criança sob pena de cair na puerilidade.”
(“O ser o tempo da poesia”, pp.157)

E continua, agora com suas próprias palavras:
“A consciência, quando amadurece e se aguça, chega à encruzilhada: ou a morte da arte, ou a reimersão no mundo da vida que, como na infância, se renova a cada geração.”
(O Ser e o Tempo da Poesia, pp.158)

Mas, Clarice sabia fazer arte e boa literatura para adultos e crianças. Parecia ter conservado através do “olhar míope” e do “flash” (segundo Olga de Sá) luminoso a revelação através de sua áurea infantil, iluminando os olhos do ‘adulto cego’ para os valores alienantes que dominam as sociedades. Homem que quer compreender a si mesmo e ao mundo que o rodeia.

E com este intuito, Clarice vai tecendo a narrativa, dando nome próprio ao coelho e o apresentando ao leitor. Suas aventuras são narradas com muita delicadeza e muita sensibilidade e mesmo sendo uma narrativa em que ela dialoga sempre com Paulo, o clima de cumplicidade acaba se estendendo a qualquer criança que chegue a ler a obra. Mais uma vez aqui não faltam passagens com exemplos de cunho moralizante como em qualquer fábula. Exemplo da beleza interior em superioridade à beleza exterior de Joãozinho:

“... Joãozinho tinha cara de bobão e era lindo.”

Gradativa sedução ou conquista de confiança, devagar para a criança ir se acostumando... Clarice Lispector desenvolve uma narrativa repleta de descrições tanto dos aspectos físicos quanto dos psicológicos de Joãozinho, assim como as várias intervenções, que não deixam a história, esta que não tem uma narrativa totalmente linear, cair no marasmo. Mesmo sem muitas ações (já que elas quando ocorrem se dão no plano da imaginação, no interior, sendo apenas mais uma vez o fluxo de consciência tão recorrente nos trabalhos de Clarice Lispector), a narrativa que a autora desencadeia cativa e envolve completamente o leitor, e nesse aspecto a exemplos dos já analisados, sua obra infantil se identifica muito com sua obra adulta.

“QUASE DE VERDADE”

Nesta história, o narrador é Ulisses, cachorro de Clarice – a autora. É um cachorro bonito com o pêlo castanho cor de guaraná e olhos dourados. Além disso, é um cachorro “mágico”, que adivinha tudo pelo cheiro – seu faro. Ulisses começa contando uma que quase parece de mentira e quase parece de verdade. Em sua história, tem homens, mulheres, nuvens, figueiras, galinhas, galos, passarinhos, os bichos falam e “patati-patatá”... Conta sobre Ovídio, o galo e sobre Odissea, a galinha.

Também sobre Oníria, uma senhora que quando entra na cozinha fica meio “mágica”, transformando leite, ovos, manteiga e etc. em bolos maravilhosos. Ela é casada com seu Onofre. Ah! E tem também a temível Oxélia, bruxa má, ou melhor, nuvem- bruxa- má! Sem esquecer de mencionar, é claro, que a figueira se chamava figueira mesmo. Ao final da história, Ulisses coloca uma bruxa – ou melhor uma nuvem- bruxa- boa – para defender Ovídio e Odissea, chamada Oxalá e “patati-patatá”... Até que Ulisses termina a história dizendo novamente que é um cachorro, e que somente Clarice entende o que ele quer dizer com “au- au- au”.

A IMAGINAÇÃO DO CACHORRO ULISSES

Nesta obra, Clarice Lispector usa técnicas um pouco diferentes das outras duas anteriores. Quem é o narrador onisciente é o cachorro Ulisses. A história muda de ângulo algumas vezes. Logo no início está a narrativa em primeira pessoa com Ulisses se apresentando e depois parando de falar sobre si mesmo e passando a narrar uma história “quase de mentira, quase de verdade” sobre nuvens (Oxélia e Oxalá), galinhas e galos (Odissea e Ovídio), pessoas (Oníria e Onofre) e etc. Já na explicação dos nomes “ ‘O’ de ovo e o resto que é porque tinha de ser assim mesmo”, já é encontrada uma característica muito marcante na obra infantil lispectoriana: a repetição como recurso para ênfase de determinado termo e para criar uma situação cômica. E assim seguem-se todas elas:

“O galo se chamava Ovídio. O ‘o’ vinha de ovo, o ‘vídio’ era por conta dele. A galinha se chamava Odissea. O ‘o’ era por causa do ovo e o ‘dissea’ vinha por conta dela. Aliás, o mesmo acontecia com Oniria: o ‘o’ do ovo e o ‘niria’ porque assim queria ela. Casada com seu Onofre era em homenagem ao ovo – você adivinhou certo: o ‘nofre’ era malandragem dele...” ... “A bruxa má se chamava Oxelia. O ‘o’, etc., etc., etc., você já sabe.”... “...um empregado, de nome Oquequê (o ‘o’ do ovo, e assim por diante)...” ... “...uma bruxa muito da boa chamada Oxalá, o ‘o’ do ovo e o ‘xalá’ por vaidade.”

As onomatopéias também são um fator muito importante nesta obra. Ao decorrer de toda a história ‘ouvem-se’ os latidos e os piados dos pássaros. Os “au- au- au” de Ulisses, assim como os “pirilin- pin- pin, pirilin- pin- pin, pirilin- pin- pin” dos pássaros aparecem inseridos em meio à história o tempo todo até que passam despercebidos depois de um tempo como quando realmente ouve-se um barulho por muito tempo. O barulho parece não cessar ou diminuir mas os ouvidos parecem acostumar ou simplesmente ignorar. Mas tanto o “au- au- au” quanto o “pirilin- pin- pin” dão um certo charme à narrativa do cãozinho Ulisses. Outras onomatopéias como o barulho da jabuticaba sendo esmagada pelo pé (“plóqui- ti- ti, plóqui- ti- ti, plóqui- ti- ti”) ou das aves estalarem as jabuticabas com o bico fazendo “plique-ti, plique-ti, plique-ti”, assim como o “crack, crack, crack” dos dentes ao morder pirulito, também permeiam de doçura e sensibilidade o texto de Clarice Lispector. E essas onomatopéias em muito se assemelham ao início da obra “Perto do Coração Selvagem”:

“A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac...O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? Roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.”

O jogo com as palavras não se limita às onomatopéias, também estão presentes nas sinestesias, prosopopéias ou catacreses em “Quase de Verdade”. Logicamente, esses recursos aparecem de forma mais trabalhada, no sentido de dar uma vida à obra e de uma maneira direcionada ao público infantil. Na obra infantil, é essencial essa associação entre som e imagem, que dão mais realce que qualquer outra produção, principalmente no âmbito literário. E mais precisamente no que diz respeito à literatura destinada à criança, que praticamente vive de estabelecer relações para tentar compreender o mundo que a cerca.

A literatura possibilita à criança viver num mundo só dela, mantendo longe o egocentrismo de viver só para ela. Clarice estimula a imaginação inventiva das crianças em suas obras infantis. Em determinada passagem dessa obra, o cachorro Ulisses declara que irá contar uma história que quase parece de mentira e que parece de verdade, e explica a seguir que “só é verdade no mundo de quem gosta de inventar...” no mesmo mundo da fantasia que Joãozinho, o coelhinho criou, no mesmo mundo, novamente, em que tem que se “fazer-de-conta” que está ouvindo o cachorro latir ou o passarinho cantar. E “patati-patatá”, a história vai historijando, a narradora narrando e a criança aprendendo a ‘criançar’, ou a imaginar - como insistem os adultos - no seu novo mundo.
Todos esses recursos vão aparecendo nesta obra em exemplos como “ ...os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam, a figueira figueirava, os ovos ovavam.

E assim por diante.” Nestas passagens está claramente caracterizada a aproximação não só com relação à linguagem, mas também ao pensamento infantil, que trabalha principalmente por analogias. Uma criança pensa de determinada forma e associa tranqüilamente termos somente pela proximidade que apresentem. Afinal, se a cozinheira cozinhava porque o galo não galava? E a narradora, parecendo entender bem essa particularidade da mente infantil, infinitamente criativa, é capaz de fazer deste detalhe um elemento de maior aproximação, cumplicidade e identificação por parte da criança. E, depois de tudo isso explicado ainda conversa mais uma vez com os pequenos leitores:
“A essa altura você deve estar reclamando e perguntando: cadê a
história? Paciência, a história vai historijar (trocadilho com a palavra cacarejar, já que se trata de uma história de galinhas.)
E “patati e patatá” ou “etcetera e tal” como diriam os adultos, a história ‘historija’ e Clarice Lispector se revela também magnífica escritora infantil, assim como romancista e contista.

“A MULHER QUE MATOU OS PEIXES”

Nesta história, Clarice já começa se desculpando por ter matado os peixes. Mas foi tudo sem querer, e isso ela pode provar ao longo da narrativa, como promete logo no início. Ela só conta como tudo aconteceu ao final do livro, porque no começo e no meio conta as várias histórias dos bichinhos que teve, como gostou e tratou bem a cada um deles, inclusive aos “vermelhinhos”, que eram os dois peixinhos que morreram (de fome porque ela esqueceu de lhes dar comida).
Primeiro Clarice conta sobre uma gata que teve ainda na infância. A gata havia parido uma ninhada de gatinhos que ela não deixava que tirassem de perto da mãe deles.

Quando se desfizeram dos gatinhos, ela conta que até ficou doente de tanta saudade da gata e dos seus filhotinhos. Mas, Clarice não teve por perto só “bichos convidados” não, os bichos não convidados como as baratas e as lagartixas também moravam clandestinamente em sua casa. Por vontade mesmo, ela só teve mais dois coelhos – e até já escreveu uma história sobre ele “para gente pequena e gente grande” – dois patos, muitos pintos, dois cachorros – um chamado Dilermando no período em que morou na Itália, um outro chamado Jack e – Ufa! Finalmente os últimos – os macacos. Mas não é só um macaco, por isso imaginem mais bichinhos: um mico e uma miquinha muito suave e linda chamada Lisete! Mas a história de Lisete é muito triste, porque ela de tão caladinha e quietinha foi ficando doentinha. Vai ver ela estivesse tão quieta por ter ficado doente antes. Foi levado ao veterinário e ... isso mesmo: Lisete acabou morrendo, deixando todos muito tristes.

Clarice ainda conta a história de Bruno e Max – dois cachorros um deles de Roberto, um amigo dela. Outra história triste porque Bruno mata Max, que morre ‘assassinado’ pelos outros cachorros da vizinhança. Depois de conversar – conversar mesmo, porque todas as passagens fluem de maneira muito natural, como se estivessem num diálogo - sobre bichinhos de estimação, naturais, convidados ou não-convidados, Clarice finalmente conta como matou os vermelhinhos – peixinhos vermelhinhos. E é como ela tinha dito no começo do livro mesmo: foi sem intenção, quando ela esqueceu de dar-lhes comida. Esqueceu – não de propósito – porque ela é muito ocupada, escrevendo para adultos e crianças e... termina perguntando às crianças- leitoras que prestaram atenção a toda sua história:
_ Vocês me perdoam?

O UNIVERSO INFANTIL NA ADULTA CLARICE LISPECTOR

Ao contrário das duas narrativas analisadas, “A Vida íntima de Laura” e “O Mistério do Coelho Pensante” não são contadas por um narrador - protagonista como o eram a galinha Laura e o coelhinho Joãozinho, mas também não é como “Quase de Verdade” em que o narrador é meio personagem e às vezes somente narrador, ou seja, com o foco narrativo mudando em meio à narração. Em “A Mulher que Matou os Peixes”, a narradora é a própria Clarice. Narrador e autor fundidos numa só pessoa, já que ela narra de maneira tão ou ainda mais intimista os fatos que a podem justificar ou absolver por ter matado “os vermelhinhos” - peixes do título do livro. Com uma cumplicidade e carinho muito grande, a escritora se aproxima daqueles a quem se dirige a cada palavra como na passagem em que ela se apresenta:

“Antes de começar quero que vocês saibam que meu nome é Clarice. E vocês como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e meu coração vai ouvir.”

Neste instante, o clima fica muito mais aconchegante e íntimo. A narradora parece exercer o papel de uma verdadeira contadora de histórias, daquelas que toda criança quer ter ao lado antes do sono profundo repleto de sonhos. Assemelhando-se a uma pessoa muito próxima e querida da criança. Uma pessoa que se comportará como um anjo da guarda, velando por toda a noite, e, que guardará a criança durante toda a história e a cada momento em que as páginas desse livro forem abertas. A impressão é de que a narradora “Clarice” é uma amiga que conversa, aconselha, pergunta, brinca e conta fatos de sua própria vida com carinho imenso.

Ela também parece ‘morar’ dentro do livro. É inacreditável a sensação de proximidade, dadas as palavras, os termos em geral e o modo de conduzir a narrativa, que a escritora estabelece com o leitor infantil, não só o adulto como já foi muitas vezes discutido analisado.
A narrativa não é aqui mais tão marcada por figuras de linguagem como em seus outros livros infantis, mas a linguagem usada é muito simples e muito agradável de ser lida, principalmente no caso do público ao qual se dirige. O mais curioso é que algumas passagens são encontradas também em alguns de seus contos “adultos”.

Por exemplo, no conto “A Quinta História”, do livro “A Legião Estrangeira”, há o assunto das baratas e em “A Mulher que Matou os Peixes”, esse assunto também é abordado, só que de maneira bem menos profunda, muito mais sutil. Não se pode afirmar que se trata exatamente do mesmo episódio, mas é possível o estabelecimento de analogias.

“Vocês sabem que tive uma guerra danada contra as baratas e quem ganhou nessa guerra fui eu?
Eu fiz o seguinte: paguei um dinheiro para um homem que só faz isso na vida: mata baratas.
Esse homem faz uma coisa que se chama dedetização. Ele espalha pela casa toda. Esse remédio tem um cheiro muito forte que não faz mal para a gente, mas deixa as baratas muito tontas até que morrem.”
(MMP)

E no conto “A Quinta História”, que já se inicia como:

“Esta história poderia chamar-se “As estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também como matar baratas.”

E depois:

“E hoje ostento secretamente no meu coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada””
(QH, pp. 76)

Outra comparação muito mais aceitável será com Lisete (Lisette), a miquinha de “Macacos”, conto presente em “A Legião Estrangeira” e também uma das personagens do livro infantil “A Mulher que Matou os Peixes”. História vista e contada por ângulos muito diferentes, mas que se entrelaçam por meio da inocência infantil e da tolerância do adulto. Em determinado momento, ao final do livro infantil, como para se justificar de seu crime e como para estabelecer mesmo uma relação entre o trabalho de se dedicar a sua obra infantil e a sua obra para adultos, a narradora se desculpa por ter esquecido de alimentar os peixinhos na ausência do filho que estava viajando por um mês:

“Mas era tempo demais para deixarem os peixes comigo. Não é que eu não seja de confiança. Mas é que sou muito ocupada, porque também escrevo para gente grande.”

AS PERSONAGENS “INFANTIS” EM CONFLITOS E SEMELHANÇAS COM AS PERSONGENS “ADULTAS”.

No conto “Uma galinha”, do livro de contos “A Legião Estrangeira” de Clarice Lispector, que começa com o famoso “Era uma galinha de domingo...” - bordão típico do início dos contos de fadas infantis – narra-se uma perseguição em pleno domingo de manhã. Perseguição impessoal de uma galinha para o almoço de uma família tradicional ou nem tanto, uma família aleatória. Como o próprio texto mostra, era tudo feito de modo tão automático: “Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.” Até que a galinha consegue escapar, mobilizando o instinto de perseguição de todos os presentes na casa.

Eis que quando finalmente a agarram “... de pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta.” E isto comove momentaneamente de maneira impressionante a todos da casa, até que sob os protestos do pai e da menina, a galinha recentemente uma ‘galinha - mãe’ escapa da morte. “A galinha torna-se a rainha da casa.” É interessante notar a semelhança maior ainda com Laura nessa passagem, já que em determinado momento da narrativa, “Laura estava satisfeita como uma rainha.” Mas é porque ela vivia no mundo da imaginação como o coelho Joãozinho. Mundo dos “pensamentozinhos”.
Já a outra galinha, mesmo com todo seu ar de importância não próprio, mas o ar que se refere à ‘áurea’ que a ela atribuíram, e que de nada valia para sua “vida de galinha”, ‘pensada com cabeça de galinha’, cabeça porém ‘vazia, de galinha’ e vivendo para seu fim iminentemente ‘de galinha’.

“Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.”

Os monólogos interiores, os fluxos de consciência estão presentes de forma sensibilíssima nesse conto. A elevação do ser “ínfimo”, a galinha, “estúpida, tímida e livre” à condição de rainha, já denuncia o mito. Mesmo caminhando para seu destino inevitável somente cumpre seu ‘expediente’ de vida de galinha, sem nome, sem “pensamentozinhos e sentimentozinhos” ... E a comparação inevitável da galinha com a mulher, e até a elevação de Laura à condição humana, como a própria distinção do nome a destaca de sua simples espécie. A comparação com outro romance de Clarice Lispector, devido à galinha, a representação da mulher e a construção da personagem Laura:

Nunca nunca sim sim. Tudo era como o barulho do bonde antes de adormecer, até que se sente um pouco de medo e se dorme. A boca da máquina fechara como uma boca de velha, mas vinha aquilo apertando seu coração como o barulho do bonde; só que ela não ia adormecer. Era o abraço do pai. O pai medita um instante. As ninguém pode fazer alguma coisa pelos outros, ajuda-se. Anda tão solta a criança, tão magrinha e precoce... Respira apressado, balança a cabeça. Um ovinho, é isso, um ovinho vivo. O que vai ser de Joana?”
(PCS, p.16)

O ovinho vivo e a mulher, ou da mulher... ou ainda as três etapas que caracterizam a estrutura do conto “Uma galinha” com a fuga, a esperança de fugir atingindo as alturas dos telhados e a recapturação. Como uma recorrência em torno do mesmo tema, a impossibilidade de libertação, na mesma cozinha onde a galinha tornando o centro da casa, e posteriormente “a rainha”, aqui se trona centro da narrativa. Provoca uma inversão de papéis, dada a identificação com a dona-da-casa que são submetidas à mesma angustia e em nenhuma delas se “adivinharia um anseio”, já que a narrativa salta de uma para a outra de forma tão sutil e ao mesmo tempo surpreendentemente rápida que é quase impossível se perceber. Ao pôr o ovo, “nascida que fora para a maternidade”, é extremamente clara a analogia:

GALINHA=MÃE=LAURA=MULHER.

Ou ainda somente a comparação mulher=galinha, que no texto, estão fundidas junto às informações. Ambas parecem pertencer a um só corpo, ou ainda um amálgama que não possibilita a distinção. Afinal, a qual das duas o narrador se refere em passagens como:

Parecia calma. Desde Sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela... Nunca se adivinharia nela um anseio.”
(LF, pp.33) (?)

Porém mesmo em relação à comparação somente entre uma galinha e outra, sendo uma galinha de fábulas, que há uma aproximação muito sutil e muito velada da realidade, sua vida é muito semelhante. Talvez, porque em Clarice Lispector as fábulas não tenham uma preocupação só de moralizar ou alegorizar alguma preocupação essencialmente social. Seu objetivo ao mesmo tempo em que se aproxima da realidade para denunciá-la, parece subverter-se tentando explicar essa realidade, não mais representá-la. Logo, essa é uma característica que se aproxima claramente de sua obra para adultos.
Segundo a definição de Lúcia Pimentel Góes:

“A fábula é uma forma literária indireta na exposição de sua expressão, de caráter geralmente crítico, de análise precisa e tradução sintética dos fatos que são tanto objetivos quanto eloqüentes para o entendimento.”
(Introdução à literatura infantil e juvenil, pp. 144)

Levada em conta essa definição, pode-se afirmar que ao mesmo tempo em que a literatura infantil se encaixa nas fábulas modernas, recorrentes em Histórias de Animais tradicionais em muito dela se afasta por ainda concentrar muito da sua característica própria de imersão na essência das personagens. Sua obra infantil, numa definição mais radical, é um possível esboço muito bem trabalhado e minuciosamente arranjado de sua obra adulta.

Por isso, a inevitável recorrência ao mesmo ponto: Laura tem nome, tem família, tem pessoas que não a matariam por nada nesse mundo porque a querem muito bem e tem até visitas dos habitantes de Júpiter. Laura tem filhos, não ovos e apesar de ser “burrinha” e muito feia por fora, é muito bonita por dentro. Laura tem uma identidade e mais do que tudo, tem um final feliz!
Quanto às obra “A Mulher que matou os peixes” e o conto “Macacos”, as descrições são distintas em cada um dos modos de relatar o primeiro macaco que a narradora havia adquirido. O modo de se referir de cada um dos textos, apesar de muito diferente, é muito aproximado, não só pelas descrições serem de um mesmo objeto, mas por apresentarem linguagens muito próximas. As descrições de “Os Macacos” condensam muito do estilo “lispectoriano”, mas têm uma carga emotiva chegando a beirar o infantil por diversas vezes:

“Escolhi uma miquinha muito suave e muito linda, que era muito pequena. Estava vestida com saia vermelha, e usava brincos e colares baianos. Era muito delicada conosco e dormia o tempo todo. Foi batizada com o nome de Lisete. Lisete às vezes sorria pedindo desculpas por dormir tanto. Comer, quase não comia, parada num cantinho só dela.”
(MMP, pp. 29)

“E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.
Quase cabia na mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana... dormia muito, mas para comer era sóbria e cansada.”
(M, pp. 44)

O relato de Lisete (Lisette) é muito diferente em cada um dos textos notando principalmente como a narradora ‘economiza' adjetivos e mesmo palavras em sua descrição para o público adulto de “A Legião Estrangeira” e em como alonga e enfeita a descrição para o público infantil. São fascinantes as artimanhas pelas quais Clarice Lispector tece ambas as teias que constituem os enredos. Numa referência mais aprofundada nos fatos e menos preocupada apenas com os aspectos psicológicos a narradora de “A Mulher que Matou os Peixes” consegue suavizar o relato da morte e da separação dos macacos trabalhando bem conceitos de perda. Mesmo os títulos “Macacos” do conto já problematiza os fatores envolvidos, dando um ar impessoal à narrativa. As metáforas usadas como “macacão – pequeno” ou “homem – alegre” e “mulher em miniatura” podem ser indícios de uma visão estereotipada e de cunho caricatural dos dois animais.

“O artista, deve porém utilizar dados de observação, tentando reconstruir com coerência o seu universo. Enfim, os livros de animais ajudariam os pequenos a crescer, a vencer suas lutas, a sair do seu egocentrismo e a descobrir novos laços afetivos.”
(Introdução à Literatura Infantil e Juvenil, pp. 152)

Apesar das inúmeras semelhanças entre os dois textos, existem, por outro lado, diferenças marcantes da própria grafia do nome Lisete (Lisette) em ambos os textos:

“Foi batizada com o nome de Lisete.”
(MMP)
“E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.”
(M)

Talvez a intenção da escritora fosse simplificar detalhes que à narrativa não causariam maior efeito e encurtar a narrativa, porém não deixando de ser fiel às descrições importantes e aos fatos exemplificados. Outro fato distinto a ser salientado é o que se refere ao tempo de permanência da macaca com a narradora, numa contradição gritante:

“ Três dias esteve conosco... no terceiro dia estávamos na área de serviço admirando Lisette e o modo como ela era nossa... Depois eu disse aos meninos: Lisete está morrendo.”
(M)

“No sexto dia dei um grito quando adivinhei: Lisete está morrendo!”
(MMP)

Quanto a forma de encarar cada um das reações diante da morte de da macaca em que um dos textos, também existem outras diferenças:

“No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: “Você acha que ela morreu de brincos?” Eu disse que sim. Uma semana depois o mais velho me disse: “Você parece tanto com Lisette!” “Eu também gosto de você”, respondi.”
(M, pp. 45)

“No dia seguinte o veterinário telefonou avisando que Lisete tinha morrido durante a noite. Compreendi então que Deus queria levá-la. Fiquei com os olhos cheios de lágrimas e não tinha coragem de dar a notícia ao pessoal de casa. Afinal, avisei e todos ficaram muito, muito tristes.
De pura saudade, um dos meus filhos perguntou:
_Você acha que Lisete morreu de brincos e colar?
Eu disse que tinha certeza que sim, e que, ela mesmo morta continuaria linda.
Também de pura saudade, o outro filho olhou para mim e disse com muito carinho:
_Você sabe, mamãe que você se parece muito com Lisete?
...
_Obrigada, meu filho – foi isso que eu disse a ele e dei-lhe um beijo no rosto.”
(MMP)

A narrativa quando motivada pela perspectiva infantil é muito mais suave, muito delicada e muito sutil. É capaz de falar sobre acontecimentos tristíssimos com a pureza e a magia com que uma criança falaria sobre eles. Baseia-se também nas minuciosas descrições, na pormenorização dos detalhes e nas citações dos diálogos. Fatos que dão um toque todo pessoal e bem próximo à narração de qualquer fato.

Já quando os relatos são sintetizados, os diálogos suprimidos e os exemplos descartados, como no caso do conto “Macacos”, a narrativa toma ar bem impessoal e mesmo se magistralmente trabalhado como é por Clarice Lispector, a emoção tende à melancolia e não à emoção terna e ingênua que sente uma criança ante ao fator da morte. A impressão que vem à tona é a de que o adulto enxerga a morte sob a visão única da idéia de perda de algo – algo que mesmo indiretamente lhe pertence ou a sua vida. Já no caso da criança e sua inocente visão, a única coisa que realmente lhe importará, será o da falta ou mais precisamente, a ausência daquele objeto que é tratado e visto, pelo que ele representa também, como ser vivo. Este é um dos exemplos que é dado tanto na volta da família em direção à casa e deixando Lisete (Lisette) no hospital:

“Fomos embora de guardanapo vazio.”
(M)

“Voltamos para casa com o guardanapo vazio e o coração também. Antes de dormir eu pedia para Deus salvar Lisete.”
(MMP)

Quanto ao final dos textos:

Uma semana depois o (filho) mais velho me disse: “Você parece tanto com Lisete!” “Eu também gosto de você,” respondi.”
(M)

“_ Também de pura saudade, o outro filho olhou para mim com muito carinho:
_Você sabe, mamãe que você se parece muito com Lisete?
Obrigada, meu filho – foi isso que eu disse a ele e dei-lhe um beijo no rosto.”
(MMP)

No livro infantil a narradora diz não ter se sentido ofendida com a observação do filho, porque segundo ela “a gente se parece mesmo com macaquinho”, e porque Lisete (Lisette) era “cheia de graça e muito bonita”. (Talvez por isso mesmo tenha sido em “Macacos” que Lisette tratava-se de uma “mulher em miniatura” e de que o macaco grande era um “homem alegre”.) Mas no conto “Macacos” a mãe parece desconversar, quando o filho a ‘elogia’, dizendo gostar dele também... Tudo aqui fica tão indefinido e infinitamente triste que a morte de Lisete (Lisette) passa a fazer parte de uma noção profundamente melancólica e vazia de morte.

Simplesmente vazia. Nada mais. Assim como o guardanapo vazio. Não com o guardanapo e o coração vazio da criança... A miquinha tinha além de brincos, colar e pulseira uma identificação muito especial naquela casa, ela como Laura parecia ter “pensamentozinhos e sentimentozinhos” já que “às vezes parecia sorrir pedindo desculpas por dormir tanto...” Mas já quando é retratada simplesmente como “macaca”, no conto, seus “sentimentozinhos” são rebaixados como sendo de uma miquinha “um pouco suave demais!” ... doente...
A narrativa permeada de extrema meiguice é feita para criança e talvez pela criança porque o que parece é que a narradora projeta sua versão da história sob o ponto de vista mais ingênuo e infantil possível. Retratar Lisete ou Lisette como ser e até quase humano verdadeiramente... pelo menos elevar seu valor...
“...esquecer Lisete? Nunca.”
(MMP)

O CONFRONTO DAS CARACTERÍSTICAS FUNDAMENTAIS DAS OBRAS INFANTIS E ADULTAS EM CLARICE LISPECTOR

No conto “A quinta história” há muito caracteristicamente da visão crítica de um narrador protagonista, que por meio de gestos, transmite suas emoções, ao contrário da narrativa em “A Mulher que Matou os Peixes”, em que a cena de matar as baratas é descrita com a paciência e a sensibilidade de uma criança contando uma história para outra, ou ainda de alguém contando um fato parecido a uma criança:

“...baratas muito feias e muito velhas...”
(MMP)
“Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa.”
(QH, pp.76)

No primeiro exemplo, o cuidado e os argumentos de convencimento somente infantil do porque do “mal” das baratas, enquanto o outra numa descrição quase clínica e obituária acerca da anatomia de uma barata morta, feita com tanta imparcialidade, mas com epifania tão profunda que se mantém muito distante ainda da objetividade. No conto “A Legião Estrangeira”, do livro homônimo, em encontra-se a personagem “Ofélia”: uma criança comum, “uma menina belíssima, com longos cachos duros...” e que a tudo observava e dispensava a qualquer fato toda a atenção e curiosidade de seus “oito anos altivos”.

Com muitas outras delineações como estas a respeito da menina, Clarice Lispector vai delimitando uma peculiaridade muito grande da efetiva participação da criança numa narrativa, tendo extrema importância. Mas este fato vai intrigando tanto que deixa incógnitas e pistas em todos os cantos do conto. Um verdadeiro ‘quebra – cabeças’ sobre o instinto infantil que por tudo se interessa e sobre tudo pergunta e quer saber e até experimentar. A perversidade com que a criança nasce mas que num primeiro momento é sublimada porque não possui malícia o suficiente para isso está presente em Ofélia. O amor imensamente grande se tornando sufocante diante de uma pessoa ainda tão pequena e que ainda vivera tão pouco para amar demais. Então a morte do pinto por puro amor da menina. Puro e impuro – cheio de uma maldadezinha irônica, própria da primeira idade.
Neste conto a narradora, mesmo às vezes parecendo se incomodar com estas características tão peculiares de uma criança já que seus filhos ainda “eram pequenos demais para sua (de Ofélia) sabedoria pausada.” Em uma outra instância mostra profunda auto-análise e análise psicológica da menina também. Só que mesmo assim, a menina ainda a surpreende, continua surpreendendo o tempo todo. Mesmo quando a ameaça em forma de criança parece sentir-se rendida  - “...era a inveja, você tem tudo e a censura... ela me queria para ela...” – ante à mulher adulta, dona da censura, a criança a supera matando o pinto... por amor?  “era o amor, sim, tortuoso amor.”

 

Clarice Lispector   adapta belíssimo desenvolvimento da  análise de si mesma e de suas reações diante da menina:

“E o meu primeiro sim embriagou-me. Sim, repetiu meu silêncio para o dela, sim. Como na hora de meu filho nascer eu lhe dissera: sim. Eu tinha ousadia de dizer sim a Ofélia, eu que sabia que também se morre em criança sem ninguém perceber. Sim, repeti embriagada, porque o perigo maior não existe: quando se vai, se vai junto, você mesma sempre estará; isso, isso você levará consigo para o que for ser.”
(LE, pp.96)

 

Talvez por esse parágrafo de “A Legião Estrangeira”, e em muitos outros, possam ser encontrados índices do que aconteceria à Clarice ao dirigir-se às crianças, sua maneira de falar com elas dizendo “sim” para não chocar ou contrariar, e mesmo para (não) arriscar sua experiência se permitindo penetrar no universo delas, e desprotegida... atente ao fato: desprotegida, nunca fragilizada. Talvez por isso a extrema compreensão em entender e dar às crianças o que elas querem receber de um texto. Como a compreensão ao instinto peculiar da menina Ofélia, Clarice cria um enredo muito bem trabalhado, de maneira extremamente sensível e de completa identificação que mergulham inteiramente no complexo mundo infantil.

A IMORTALIZAÇÃO DE CLARICE LISPECTOR:
O MOMENTO INFINITO DA ESTRELA

 

Entre "Uma galinha" e “A Vida íntima de Laura", passaram-se alguns anos, mas até a “A bela e a fera", passaram-se dezessete anos de escrita e vários outros contos e romances. Textos sempre difíceis, de teor orgânico, visceral que retratam de forma única a genialidade de Clarice Lispector. A sua preocupação, mesmo que não declaradamente  social, de retratação dos papéis da mulher na sociedade e no mundo,  são sinais de uma permanente tematização, embora mais disfarçada, da situação da mulher na cidade que se moderniza e aprofunda selvagemente as desigualdades sociais, processo em que ela tem um papel importante dentro da classe média brasileira na construção do país - isso quando reduzida essa característica da obra de Clarice. Já que as mulheres de suas obras tem um aspecto universal, dado que é  sempre vista por dentro e não pelo seu exterior, "Amor", "Felicidade Clandestina", "Devaneio e embriaguez duma rapariga" , "Os Laços de Família", “A Vida íntima de Laura”, “A Paixão Segundo G.H.”, “A Quinta História”, “Macacos”, “Uma galinha”, “Legião Estrangeira”,  e, embora menos facilmente, "A imitação da rosa", são, entre outros contos e obras que podem ser confrontados sob essa perspectiva.

Essa literatura introspectiva, intimista, busca fixar-se na crise do próprio indivíduo, em sua consciência e inconsciência. Nas limitações e conflitos do homem moderno. Clarice Lispector é o principal nome de uma certa tendência intimista da moderna literatura brasileira, como exemplo de James Joyce ou Virgínia Wolf, na literatura que busca expressar o homem e suas impressões sobre o mundo moderno que o mantém em constante conflito consigo próprio. Mas mesmo mantendo certa aproximação com a obra desses escritores, sua obra tem uma construção muito elaborada, pessoal que carrega muito de suas próprias preocupações. Clarice, afirmava que apesar de poder escrever, não utilizava a literatura como uma forma de catarse, já que ela dizia preservar muito os valores do ser humano, preferindo desabafar num ombro amigo. Mas, tendo como eixo principal de sua obra o questionamento do ser, a pesquisa do ser humano – o tão polemizado gênero, que teve início com “A Paixão

Segundo G.H., o chamado romance introspectivo – ela conseguia muito mais do que explorar a fundo seu próprio ser o de inúmeras pessoas que tomam contato com o Universo de suas personagens. E isto se aplica a toda sua obra, seja ela destinada ao público adulto ou infantil. "Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro", assim explicava a autora seu ato de escrever. Explica claramente como vai tecendo uma teia emaranhada de analogias, contendo ambigüidades, antíteses e paradoxos que trabalham tão bem a linguagem, que dá a ela uma forma autônoma, de total independência ao longo do texto. É impressionante o poder que Clarice parece dar às expressões e palavras que usa durante seus textos. No plano da linguagem percebe-se uma certa preocupação com a revalorização das palavras: dá-lhes uma roupagem nova, explorando os limites do significado, trabalhando metáforas e aliterações. Manifesta, inclusive, uma preocupação muito grande com aquilo que não está escrito em palavras, mas sim nas entrelinhas. A própria Clarice escreveu:

"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas."

 

As palavras são totalmente independentes e nessa teia de que fazem parte, só podem ser decifradas quando os laços, que são apenas enfeites de um grande nó narrativo, são decodificados pela mente do homem que transcendendo sua própria condição humana se liberta dos padrões convencionalmente literários e mergulha profundamente em si mesmo.

"Sou brasileira naturalizada, quando, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro. Criei-me em Recife.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BORELLI, Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

BOSI, Alfredo. Clarice Lispector. In: História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989.

GOTLIB, Nádia B. Clarice - uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.

GUIDIN, Márcia Lígia. A hora da estrela de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1996. (Roteiro de Leitura).

LEITE, Ligia Chiappini. Moraes. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1985. (Série Princípios).

NOVELLO, Nicolino. O ato criador de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Presença/MinC/Pró-Memória/INL, 1987.

PÉCAUT, Daniel.  Os intelectuais e a política no Brasil. São Paulo: Ática, 1990.

WALDMAN, Berta. Clarice Lispector - A paixão segundo C. L. São Paulo: Escuta, 1992.

KADOTA, Neiva Pitta. A Tessitura Dissimulada. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1997.

BRASIL, Assis. Clarice Lispector: um ensaio. Rio de Janeiro: Simões Editora, 1969.

LISPECTOR, Clarice.  A Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 

_________________.  Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

_________________. Quase de Verdade. Rio de Janeiro: Rocco, 1978.

 

_________________.  A Mulher que Matou os Peixes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

_________________.  A Vida Íntima de Laura. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

 

_________________.  O Mistério do Coelho Pensante. São Paulo: Editora Siciliano, 1993.

_________________. A Paixão Segundo G.H. , Editora do Autor, 1964. 

DEIXE SEU COMENTÁRIO
  • laisterça-feira | 07/10/2014 18:56Hs
    achei perfeito .... meu trabalho de linguá portuguesa vai sair ' como o liam do one direction diz ' PERFECT ?
  • simnomesegunda-feira | 08/09/2014 19:26Hs
    otimo
  • Gabrielle Kleinsexta-feira | 22/08/2014 15:24Hs
    Muito bom o seu texto parabéns!!!
  • Anna Cllara Lyma Vieiraquarta-feira | 20/08/2014 20:34Hs
    Está ótimo ! Com esse texto aí, eu vou tirar 10 no meu trabalho. Muito excelente, diz tudo que preciso, obrigada ! Parabéns para quem fez, tem muio conhecimento.
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